Numa série de interessantes artigos no Público, António Guerreiro procura pensar o processo social e político que vivemos neste momento, opondo ao conceito de “regressão” (voltar a um paraíso mítico de três Salazares, regra nos espíritos e ordem nos costumes), uma mais ampla ideia de “processo descivilizatório”, isto é, inversamente ao “processo civilizatório” que Norbert Elias descreve, um combate furioso a todas as aquisições de tolerância e liberdade que a evolução e abertura da moralidade pública têm tornado possíveis.Nós temos hoje uma amostra ao vivo, qual montra publicitária, do destino desse processo de desconstrução das regras políticas democráticas e das conquistas na aceitação social em relação às minorias: os Estados Unidos de Donald Trump, onde se aliam as pulsões racistas e homofóbicas com o projeto de desmantelar a democracia dos Pais Fundadores, rumo a um sistema autocrático, com votações controladas de cima e concentração de poderes num líder sacralizado.Se esta tendência revela a sua força nos próprios países fundadores da Democracia (França, Estados Unidos, Reino Unido), mais ainda se exprime em todos os países que se habituaram, durante toda a sua História, a regimes autocráticos.Nesse sentido, a votação num candidato de união dos democratas, de esquerda e de direita, como foi a de António José Seguro, representa uma posição maioritária dos portugueses na rejeição desse processo anticivilizatório e desse suicídio assistido das liberdades públicas.Os três Salazares não movem mais os portugueses, por vaga que seja já para tantos a memória desses tempos do “viver habitualmente”, sob a proteção da polícia, das prisões e da censura. Dissemos com firmeza não aos três Salazares e reivindicámos, para além de todas as nossas diferenças e todas as nossas desilusões, a luta contra essa “política do pior” que se vai expandindo pelo mundo.A grande lição que aprendemos é que nada fica definitivamente enterrado no caixote do lixo da História. O fascismo (pondo de lado as diferenciações académicas) está de regresso, como a esquerda norte americana entendeu já. E ao lado de nós temos uma Espanha, onde o PP não hesita em aliar-se ao Vox, uma França onde Le Pen e Bardella se tornaram favoritos, depois da empresa falhada, conduzida por Macron, de tentar destruir as diferenças políticas em democracia, uma Itália governada por um fascismo que recusa dizer o seu nome, uma Alemanha onde o AfD... etc., etc.É claro que passámos a um regime de luta pela democracia e pela própria civilização, que virá tornar o debate político essencial (socialismo democrático ou liberalismo?) secundário relativamente a este combate pelas próprias condições de existência de uma sociedade aberta, multicultural e tolerante e de um Estado democrático e social. A base consensual do funcionamento de uma sociedade decente.Não se tornou obsoleta a distinção entre esquerda e direita e aquilo a que chamamos centro designa apenas os moderados de um e do outro lado, que não querem perder o solo comum das garantias democráticas, para prosseguirem em paz e liberdade os seus combates.Em tempos idos chamava-se “unidade antifascista”. Não será hoje o mesmo inimigo, com outras roupagens, discursos e tecnologias? Diplomata e escritor