A morte de António Chainho, ontem, aos 88 anos, é mais do que o desaparecimento de um dos maiores músicos portugueses, que abraçou uma carreira reconhecida nacional e internacionalmente que se estendeu por seis décadas. É também a perda de um “mestre”, no caso da guitarra portuguesa, que não só inspirou centenas de homens e mulheres a dedilharem a 12 cordas deste instrumento, como teve um papel ativo no ensino, puro e duro, dessa arte. Um bom exemplo dessa faceta de António Chainho é a Escola Municipal da Guitarra Portuguesa de Santiago do Cacém, concelho de onde era natural o compositor, que tem portas abertas desde 2005 – foi o mentor do projeto e deu aulas.Perder “mestres” é sempre uma péssima notícia, para mais num país onde tanta falta faz quem passe o conhecimento às novas gerações. A começar pelas escolas, onde a escassez de professores não encontra solução capaz de responder ao aumento da procura e se vai agravando à medida que um número crescente de docentes se aposenta.Nos hospitais, também a capacidade formativa dos jovens internos por médicos especialistas sofre ameaças, face à debandada de muitos dos clínicos para o setor privado, o que faz com que o formador, hoje, tenha cada vez mais alunos sob a sua alçada, com natural prejuízo para a qualidade da formação. E depois há toda uma série de profissões essenciais que também sofrem desta erosão de saber: mestres-de-embarcação, construtores civis, canalizadores, mecânicos, e muitas mais, onde a passagem de conhecimento sempre teve um papel determinante para que os aprendizes – que também vão escasseando – se tornassem bons profissionais.Um dos projetos mais interessantes para dar resposta a essa realidade é, curiosamente, protagonizado por alguém que singrou na música, os Metallica, banda cuja sonoridade está nos antípodas da obra que António Chainho nos deixou. No entanto, uniu-os a preocupação com as gerações futuras. No caso dos ‘reis’ do heavy metal, foi lançado em 2019 o programa Metallica Scholars Initiative, que já investiu mais de 11 milhões de euros na força de trabalho norte-americana, apoiando escolas profissionais e oferecendo bolsas a alunos que optem por carreiras técnicas com muita procura nos Estados Unidos, que incluem, por exemplo, soldadores e camionistas.Voltando a António Chainho, pode dizer-se que terá motivos para se orgulhar com o momento de fulgor que o fado vive, pois a nomes consagrados como Camané, Mariza, Carminho, Ana Moura ou Gisela João, entre tantos outros, juntam-se outros mais jovens como Sara Correia ou Teresinha Landeiro, cujas vozes seguem embaladas pelas notas musicais da guitarra portuguesa, as mesmas que ainda tocam profundamente a alma do país.PS: Ainda sobre a vitalidade da música nacional, vale a pena destacar o enorme concerto dos Capitão Fausto no último sábado, no Meo Arena, em Lisboa. Casa cheia e diferentes gerações a cantarem em português durante mais de duas horas. Tudo bons sinais.Editor Executivo do Diário de Notícias