O dia em que nasceu foi também o dia em que partiu. António Dâmaso Chainho, mestre maior da guitarra portuguesa, morreu esta terça-feira, 27 de janeiro de 2026, na sua casa em Alfragide, no dia em que completava 88 anos. A notícia pôs em silêncio um instrumento que, nas suas mãos, ganhou voz própria e atravessou continentes, palcos e gerações.Apontado há décadas, em Portugal e fora dele, como um dos grandes intérpretes de sempre da guitarra portuguesa e frequentemente descrito pela crítica internacional como “embaixador” desse instrumento, Chainho encerrou formalmente a carreira em setembro de 2024, com quase 60 anos de atividade ininterrupta. Nesse mesmo ano lançou o derradeiro álbum, O Abraço da Guitarra, um disco de despedida em que devolveu, em forma de tributo, o que aprendera com os seus mestres da rádio.Mas foi também Mestre e mentor de grandes músicos portugueses. Camané recorda que o primeiro LP que gravou foi precisamente com Chainho: “Eu conheci o Chainho em Cascais, numa casa de fados que era o Picadeiro. Tinha 10 ou 11 anos. Eu ia com os meus pais aos fins de semana ouvir fados e cantávamos. E o Chainho gostava imenso de mim. Um dia, depois de ter gravado 4 singles, entre os 10 e os 12 anos, ele convidou-me para fazer um disco com ele, um LP. Ele fez músicas e aprendi muito com ele. Esse disco foi muito engraçado de fazer, de aprender e com fados muito bons já nessa altura. É um disco que só há em vinil, tem 12 temas. Isto foi em 1979, há 46 ou 47 anos”.O Mestre continuou a acompanhar a carreira do jovem fadista desde essa altura. Camané conta que, apesar de algum afastamento, continuou a ter contacto forte com o guitarrista: “fomo-nos encontrando em pequenas coisas. Há tempos ele fez um disco e fez um fado para mim. Era uma pessoa muito simpática, ótima. Desde sempre, dava-me muita atenção. Houve um percurso de crescimento da minha vida que o Chainho esteve sempre presente. Com 14 ou 15 anos lembro-me de ir um fim-de-semana a Coimbra cantar com ele”..António Chainho nasceu em São Francisco da Serra, freguesia do concelho de Santiago do Cacém, precisamente no distrito de Setúbal, a 27 de janeiro de 1938. Filho de um guitarrista amador e de uma mãe que cantava fados de Amália, cresceu num ambiente em que a música era tão natural como o ar da serra. Aprendeu cedo a manejar a guitarra — por volta dos oito anos já lhe conhecia os segredos básicos, e aos treze acompanhava os fados que a mãe cantava, guiado pelas emissões da Emissora Nacional que lhe levavam às mãos as guitarradas dos grandes mestres do instrumento.A passagem pela tropa, primeiro em Beja e depois em Moçambique, durante a guerra colonial, acabaria por confirmar o que, no fundo, já intuía: a guitarra era o seu destino. Em África, a guitarra quase substituiu a arma — era com ela que se apresentava em programas da Rádio Nampula e em sessões improvisadas que lhe consolidaram a fama de virtuoso.De regresso a Portugal, em meados dos anos 60, deixou o café dos pais em São Francisco da Serra e instalou-se em Lisboa, decidido a fazer da música o seu ofício. Foi para o restaurante típico A Severa, no Bairro Alto, no final de 1965 — data que o próprio assinalava como o verdadeiro início da carreira artística. Seguir-se-iam casas como O Faia, O Folclore e o Picadeiro, este último espaço de que viria a ser proprietário. Esses palcos foram laboratórios onde refina o toque e descobre a sua maneira singular de fazer falar as doze cordas.“Lembro-me perfeitamente que ainda andava quase pela mão do meu pai quando ele veio para Lisboa e veio tocar para a Severa. Em miúdo comecei a ter mais jeitinho para tocar viola e então, a partir dos meus vinte anos, fui convidado imensas vezes para tocar com o António. Eu direi dezenas de discos, numa altura em que se gravavam muitos discos. Ele era a pessoa que orientava as gravações de novos artistas. E gravávamos quase todos os dias. Ele apertou bem comigo e fez de mim um músico mais apto, porque tinha de aprender rápido e porque os discos não eram gravados como são agora. Numa tarde, gravávamos um LP”, recordou o guitarrista Mário Pacheco..Ao longo das décadas de 1960 e 1970, António Chainho tornou-se presença constante nas casas de fado e nos estúdios de gravação, acompanhando praticamente todos os grandes nomes do género, dos profissionais às vozes amadoras que procuravam “provar-se” perante uma guitarra exigente. A lista é longa: Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, Hermínia Silva, Carlos do Carmo, Frei Hermano da Câmara, Francisco José, Tony de Matos ou António Mourão estiveram entre aqueles que, em palco e em disco, contaram com a sua guitarra.Se António Chainho era conhecido pela sua carreira no fado, também chamava para trabalhar consigo músicos com carreira noutros géneros musicais. Miguel Araújo foi um deles. “Em janeiro de 2020, fui convidado pelo mestre António Chainho a participar num concerto em Setúbal. Seria para cantar uma música e tocar guitarra eletrónica. O António Chainho teve a amabilidade de me convidar para a sua casa, onde ocorreram os primeiros ensaios. Num desses ensaios eu disse-lhe que também já tinha tocado guitarra portuguesa, que era um instrumento que me apaixonava muito. Já não tinha guitarra portuguesa, não tocava há anos. Mas ele, quando soube disso, obrigou-me a tocar guitarra portuguesa. Emprestou-me uma das suas, um dos seus delicadíssimos e incríveis instrumentos. E também as unhas do indicador e do polegar. Deixou-me praticar e desenferrujar ali uns dias. E deu-me a enorme honra de tocar guitarra portuguesa com ele, em palco”.O seu percurso nunca se esgotou no papel tradicional do guitarrista de fado que fica discretamente atrás do cantor. Desde cedo procurou caminhos próprios. Formou conjuntos de guitarras, experimentou novas formações, aceitou convites para programas de rádio e televisão e começou a aparecer, cada vez mais, como protagonista em recitais em Portugal e no estrangeiro. Em paralelo, a linguagem da guitarra portuguesa foi ganhando novas inflexões nas suas mãos — um equilíbrio delicado entre a ortodoxia do fado e uma curiosidade permanente por outras músicas..Uma vez mais foi descobrir talento em jovens que se começavam a dedicar à sua arte e deu-lhes asas para poderem vingar.“Foi um dos meus mestres. Eu não tive aulas oficiais com ele, mas ensaiávamos para concertos onde ele me convidava para tocar. Aprendia as guitarradas dele, aprendia as segundas vozes para poder participar nas guitarradas com ele. Passámos muitas tardes de ensaio, muitas conversas, pedi-lhe muitas ajudas para as unhas, para expor questões técnicas. Perguntava-lhe, porque era uma coisa que eu admirava imenso, como é que ele já aos 80 e tal anos continuava com uma destreza fantástica e com uma velocidade no dedo da mão direita incrível e que eu não conseguia com 40, com metade da idade dele. E acho que isso devia muito ao facto de ele ser uma pessoa muito relaxada, muito bem com a vida, muito sorridente, sempre assim, nunca nada era um problema. E isso acho que essa alma doce e sã dele passava para a guitarra. Ele espalhava aquilo que era na guitarra”, contou ao DN a guitarrista Marta Pereira da Costa.É dessa sintonia com a guitarra e da sua inquietação que nascem muitas das colaborações que projetaram António Chainho para lá do circuito fadista. Acompanhou José Afonso e Rão Kyao em projetos que cruzavam tradições populares e sonoridades mais experimentais. Tocou com Gal Costa e Fafá de Belém, com Maria Bethânia, com o flautista brasileiro Dominguinhos e com o bandolinista Armandinho Macedo, entre muitos outros artistas lusófonos.Internacionalmente, partilhou palco com nomes como Paco de Lucía, o guitarrista clássico John Williams ou o tenor José Carreras, surgindo em festivais dedicados à guitarra e em concertos sinfónicos. A revista britânica Songlines viria a apresentá-lo como um verdadeiro “embaixador da guitarra portuguesa”, reconhecimento que cristalizou aquilo que o público já intuía: a guitarra, com ele, tinha passaporte carimbado para o mundo.Ao mesmo tempo, Chainho dividia a carreira entre vários papéis. Durante anos foi sobretudo o guitarrista que acompanhava “todos”, depois ligou o seu nome de forma muito estreita a duas figuras — Carlos do Carmo e Frei Hermano da Câmara — com quem trabalhou durante cerca de três décadas. Só mais tarde se afirmou, em pleno, como solista de referência, assinando discos e concertos em nome próprio..Camané recorda a parceria de sucesso com Carlos do Carmo: “Na minha opinião, daqueles que eu gosto de mais, ´O homem na cidade´, lembro-me perfeitamente das introduções que ele fazia, a criatividade que ele teve nesses discos. É impressionante. Ainda hoje, qualquer guitarrista que toque esses temas, vão no caminho dele. O ambiente musical é impressionante, porque todos aqueles temas que foram gravados naquela época, do Carlos do Carmo, ficaram maravilhosos e foram marcados também pelo Chainho”.O primeiro grande marco discográfico chega em 1980, com Guitarra Portuguesa, álbum que consolidou a sua reputação enquanto solista e que ainda hoje é citado como um registo essencial na história do instrumento. Em 2015, quando celebrou 50 anos de carreira, o álbum Cumplicidades chamou para junto de si nomes de várias gerações — de Rui Veloso e Pedro Abrunhosa a Ana Bacalhau, Sara Tavares, Paulo Flores ou Vanessa da Mata — testemunhando como a sua guitarra atravessava géneros, estilos e idades sem perder a raiz fadista.A despedida discográfica, O Abraço da Guitarra, editada em 2024, fecha o ciclo com uma viagem pela sua história: temas novos, revisitações e um tributo explícito aos grandes guitarristas que o inspiraram, como Raul Nery, Armandinho, Santos Rocha, José Nunes ou Jaime Santos.Mário Pacheco elogiou a longevidade e a forma com que Chainho chegou já bem depois de completar 80n anos. “Eu sempre o achei muito ágil, por isso é que fiquei surpreendido com a notícia da sua morte. Eu pensava, este homem não envelhece. Tocava e tocava e não se notava a idade. É muito triste porque foram, de facto, muitos anos que partilhámos”.Em 2023, a sua vida foi fixada num livro biográfico, O Abraço da Guitarra – Histórias e Memórias de António Chainho, de Moema Silva, prefaciado por Lídia Jorge e editado em simultâneo com o álbum homónimo. A obra reúne episódios, testemunhos e imagens que cruzam o percurso do músico com a história recente da música portuguesa, reforçando a ideia de que a biografia de Chainho se confunde com a trajetória moderna da guitarra portuguesa e não só.“Estamos a falar de um dos melhores mestres deste instrumento, tão único para nós, portugueses. E tão respeitado e acarinhado pelo mundo todo. Mas quero também testemunhar a generosidade e a humildade deste gigante, deste monstro da nossa história”, disse ainda Miguel Araújo, cujas palavras vão ao encontro das de Marta Pereira da Costa: “Eu toquei com ele no último concerto de despedida em frente à Câmara Municipal de Lisboa, toquei no Dubai, toquei em Oeiras. Tenho aqui nos últimos anos várias memórias de vários concertos partilhados com o mestre. Não foi na primeira vez que subi ao placo com ele, mas foi um concerto muito especial em Oeiras. Lembro-me que estavam vários convidados, estava o Pedro Joia, estava se não me engano o Camané, foi um concerto em que eu me senti muito honrada por ser abraçada por ele. Foi uma alegria muito grande por estar ao lado de uma pessoa que eu admiro muito e que baixava um bocadinho ao meu nível para me poder receber e para me trazer para o palco. Portanto estou eternamente grata por tudo o que aprendi com ele”..Quando anunciou o fim da carreira, em 2024, António Chainho dizia-se em paz: sentia que tinha tido a sorte de levar a guitarra a todos os continentes, de gravar discos já depois dos 80 anos, de ver reconhecido o seu trabalho em vida. Falava da guitarra com a ternura de quem se despede de um amigo antigo, mas recusava dramatismos: “dei a volta ao mundo”, dizia, com a serenidade de quem sabe ter cumprido o seu caminho.Hoje, o silêncio da guitarra portuguesa parece mais pesado. Mas o legado que deixa — discos, concertos, alunos, parcerias, memórias — garante que o som que António Chainho tirava do instrumento continuará a ecoar. Nas casas de fado, em salas de concerto, em escolas, nas mãos de jovens guitarristas que cresceram a ouvir os seus discos, haverá sempre um traço do mestre que fez da guitarra portuguesa uma língua capaz de ser entendida em qualquer palco. ."Mestre da guitarra portuguesa" António Chainho morre aos 88 anos.António Chainho faz 80 anos e estreia hoje um novo tema em direto na Internet