Caminho com Tolentino de Mendonça, o pescador sem sandálias

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Escrevo esta crónica no Dia de Reis - inicia- se o novo ano -, pretendo fazê-lo com uma oração em união com aquele que mais se identifica com a luz e o bem.

Há 20 anos fiz uma caminhada com o padre José. Começava a ser seguido com curiosidade por intelectuais, com veneração pelos que o ouviam nas homilias da Igreja do Rato e com afeto pelos que com ele tinham a sorte de se cruzar. Caminhei com o padre José entre a lisboeta Avenida de Berna e a Universidade Católica, demorámos alguns minutos, mas nunca mais o esqueci, embora ainda não soubesse dele o verdadeiramente substancial.

Quero neste primeiro texto de 2026 escrever sobre uma âncora, sobre um dos poucos faróis que nos iluminam um caminho coberto de encruzilhadas, maus sentidos e presságios. Passaram-se estes anos, continuei a minha vida, mas acabo de concluir, talvez por ter lido o seu último livro, que ele continua a sua caminhada. Que homem é este que caminha? De onde veio este madeirense, filho de um pescador pobre e quase analfabeto?

O cardeal Tolentino é o Bem. É alguém que não cedeu à vertigem do peso que a dado passo passou a carregar. Foi escolhido por Francisco para tomar conta dos segredos do Vaticano, vive entre livros proibidos, teve acesso ao conhecimento que poucos têm, mudou as vestes, tornou-se íntimo do papa e o seu nome chegou a ser repetidamente pronunciado no último Conclave. Além disso, é a ele que todas as universidades católicas no mundo reportam. É ele que define a linha, a direção da narrativa do conhecimento aberto aos jovens universitários católicos .

Tornou-se mais denso, a sua energia é diferente, como se nele trouxesse um mistério, o Mistério. Só que isso não o transformou num homem fechado dentro de si próprio e de um poder que não parece ser daqui. Poderia ter-se afundado na luxúria do saber, do que está interdito ao comum dos mortais, mas a sua densidade funcionou ao contrário: abriu-o ainda mais ao mundo. Saiu para a rua para escutar. Fundou um projeto em prisões, lava os pés a indigentes, manda os guardas saírem para ficar sozinho com homicidas, traficantes, com a pior de todas as raças humanas, a que desistiu de ser luz, colocando-se voluntariamente perto do batismo de sangue.

Tolentino não desistiu de ninguém. Continua a sua caminhada entre a Avenida de Berna e a Universidade Católica, como se naqueles dois quilómetros estivesse concentrado o mundo inteiro e todos os vivos e mortos. Tolentino é poeta por lhe interessar a alma. É teólogo por lhe interessar o espírito . E é padre por lhe interessar o corpo, a matéria de que todos somos feitos.

Não tenho a certeza se é um emotivo racional ou se é o contrário. Sei que abraça quando abraça. Um abraço seu equivale a uma oração.

É proximidade e humildade, uma humildade que nos comove. Tolentino não afasta o sofrimento, aproxima-se, chama-o até si. No seu caminho há lágrimas e sorrisos, mas nunca desistência, nunca falta de esperança. Não é possível desistirmos quando alguém assim nos oferece as coordenadas para não esquecermos a nossa própria urgência de caminho. As lágrimas porque saem de dentro para fora são renovações do caminho.

Tolentino visivelmente mais magro, nunca está cansado e não cansa. É um inventor de Tempo e de Tempos. E também de novos Espaços onde a periferia não perde importância. Olha a partir das entrelinhas, dos acasos, da palavra, dos sentimentos, de um olhar que vê. Em Para os Caminhantes tudo é Caminho, o seu último livro, aliás, best-seller Bertrand, há uma palavra que não me sai da cabeça. Gentileza. O Amor não é suficiente, precisa de ser gentil, de ser delicado, de ser atento ao mundo e aos outros.

Era esta a palavra, que pretendia agarrar neste texto.

Sendo presidente de uma instituição que lida com confiança, e que a tem tido, é um caminho que também não posso deixar de fazer. Um apelo que não posso deixar de aceitar. Tantas vezes quantificamos tudo como se não existisse vida para lá dos números, tantas vezes parecemos confortáveis com uma tirania de métricas que apenas admite vencedores e sucesso. Tolentino está acima disso. Traz a esperança, traz a bondade da espera, ela própria gestante da esperança, traz a essência da procura, o não deixar ninguém para trás, o de existir sempre uma luz no fundo do mais fundo dos túneis. É sabedoria e conhecimento, mas é também ação e compromisso com a palavra de Jesus e com o peso de um caminho sem fim, em que tudo é essência, tudo passa pelo absoluto que lhe dá sentido.

Tenho a impressão de que este texto que saiu de forma tão rápida foi-me ditado por alguém. Acredito que estas palavras não foram escritas por mim. Este é o mistério da oração.

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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