Biden no trapézio e o mundo na corda bamba

Muito do que se decide no círculo do poder em Washington tem um impacto global, quer se queira quer não. Peço desculpa por começar este texto com esta lapalissada. Mas é um facto que a política americana continua a pesar mais do que nenhuma outra nas relações estratégicas e económicas internacionais. Assim, com a entrada em funções da administração Biden, a cena internacional começou um novo capítulo. É uma mudança profunda de rota, num sentido positivo e democrático. Para já, anuncia a esperança de um apaziguamento das tensões criadas ao longo dos últimos quatro anos e que colocaram as dinâmicas entre os principais atores mundiais num patamar potencialmente explosivo. O diálogo deverá substituir a política da confrontação e do abuso da força.

Vivemos, porém, num tempo de grandes interrogações. A mobilização de dezenas de milhares de paramilitares, para assegurar a tranquilidade da cerimónia de entrada em funções do novo presidente, é um indício flagrante da gravidade das contradições internas que existem na sociedade americana. Joe Biden tem um trabalho de equilibrista à sua espera. Sabe que é feroz a hostilidade que foi fomentada pelo seu predecessor, e amplificada por vários dirigentes que se sentam no Congresso ou por comentadores que aparecem em certos canais televisivos. É ainda mais perigosa por ter gerado, na mente de muitos fanáticos, uma diabolização dos oponentes. Na lógica doentia de alguns desses tresloucados, o passo seguinte é a ação violenta, o tentar aproveitar qualquer oportunidade para atirar a matar sobre a democracia. Essa possibilidade é um risco que o Serviço Secreto terá de equacionar de modo permanente.

Ao procurar uma visão mais ampla do que poderá acontecer no seguimento deste momento de viragem, noto que ninguém consegue vaticinar de modo convincente os contornos do que temos pela frente. Apenas se pode dizer que o mundo de amanhã será diferente do que conhecemos até agora. Quem pensa que tudo voltará à situação em que estávamos em 2019, antes da pandemia, ou em 2016, antes da presidência de Donald Trump, só pode andar a sonhar com o passado.

O capítulo que agora se abre combina uma certa dose de otimismo com uma longa lista de incertezas. Na véspera da tomada de posse de Biden, participei numa discussão internacional sobre as perspetivas e os desafios que se podem antever no horizonte dos próximos anos, e não houve clareza de ideias. Quem olha para o futuro com honestidade intelectual pode identificar um número de pistas possíveis, mas acaba por ter de confessar que tudo é incerto e nebuloso.

Os únicos pontos de acordo dizem respeito à pandemia do coronavírus.

Primeiro, aceitamos todos que a pandemia é um desafio enorme, que condiciona todos os outros. Por isso, deve ser tratada como a prioridade das prioridades. Isto exige uma mobilização excecional da atenção política e de todos os meios necessários.

A segunda área de acordo é sobre o imperativo da cooperação internacional. Países do Norte e do Sul, como eufemisticamente se diz, todos devem colaborar de modo a tornar as vacinas acessíveis a cada pessoa. A luta contra a covid deve ser uma ponte de união e de cooperação entre os povos, e não uma linha de maior fratura. Seria uma tragédia de consequências incalculáveis sair desta crise com um mundo ainda mais dividido entre ricos e pobres, e, infelizmente, essa possibilidade existe.

Terceiro, também há acordo sobre a duração da crise. Não podemos alimentar a ilusão de que dentro de meses tudo estará resolvido. As questões logísticas, as dificuldades financeiras e as insuficiências em matéria de infraestruturas, sobretudo nos países mais pobres, as mutações que o vírus vai conhecendo, sem esquecer os comportamentos de algumas pessoas, tudo isso pede tempo, diligência, paciência e prudência. Essas são as mensagens que devem ser sublinhadas.

A incerteza é uma fonte de medos, de insegurança e conflitos. É propícia ao aparecimento de iluminados políticos, que reduzem a complexidade dos factos a duas ou três frases, e as soluções a um par de slogans. Por isso, há que estar atento e combater todas as formas de demagogia e mentiras políticas, de que se alimentam os populismos de todas as matizes

Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

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