Até tu, Supremo?

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Em 62 antes de Cristo, Pompeia organizou uma girls party, mas Clódio, um jovem apaixonado, vestiu-se de mulher e entrou na festa. Nada aconteceu, mas a leve suspeita de que poderia ter acontecido levou Júlio César a divorciar-se de Pompeia porque a ela, terá justificado ele, “não bastava ser séria - era preciso parecê-lo”.

Nada indica (ainda) que o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil não seja sério, mas está obrigado a parecê-lo. E não tem parecido, a propósito do caso em torno da falência do Banco Master, escândalo que vai substituir no imaginário brasileiro a Lava-Jato, assim como esta substituiu o Mensalão.

Como o governo, agora nas mãos de Lula e antes nas de Bolsonaro, é objeto e vítima da poluição que rodeia a política nacional (e internacional), o poder executivo vive fragilizado.

Por sua vez, o Congresso, casa do poder legislativo, é apelidado de “inimigo do povo” por haver centenas de deputados a brincar com o Orçamento, como aqueles que em Pedreiras, 39 mil habitantes, garantem que foram realizadas 19 extrações dentárias por pessoa no ano de 2021 para justificar a aquisição fraudulenta de equipamento odontológico. E por abrigar parlamentares fugitivos da Justiça, suspeitos de assassinato, hackers, agressores de cônjuges, um que chama “prostituta” a outra e mais um que usa cabeleiras postiças para humilhar as pares trans.

Com um poder executivo olhado com raiva por quase metade do eleitorado e um poder legislativo que não se respeita nem a si próprio, o país viu no poder judicial, que resolveu em tempo recorde o julgamento de uma tentativa de golpe, um porto seguro.

Mas não é. Por exemplo, Dias Toffoli, um dos dez juízes do STF, chamou a si o processo do tal Caso Master que, em rigor, deveria ficar na primeira instância. E ainda decretou sigilo. Ora, como dois irmãos dele são sócios de um dos detidos no escândalo, no mínimo, Toffoli já pecou mais do que Pompeia.

Acresce que o escritório de advogados da mulher de outro dos juízes, Alexandre de Moraes, tem contratos milionários com os donos do Master.

Aliás, oito dos dez magistrados do STF, segundo levantamento da BBC Brasil, têm parentes a advogar em processos no Supremo.

Gilmar Mendes, o decano do STF, organiza eventos com a nata da Justiça, da política e da alta finança brasileiras que nem se dão ao trabalho, como Clódio, de se disfarçarem.

O critério de Bolsonaro para indicar dois juízes do STF foi, segundo o próprio, etílico e religioso. “Quero alguém com quem possa tomar uma cerveja”, afirmou, antes de nomear Nunes Marques, e “alguém terrivelmente evangélico”, disse, ao sugerir André Mendonça.

Os critérios de Lula não são mais republicanos: indicou o advogado pessoal, Cristiano Zanin, e o ministro da Justiça, Flávio Dino, para o lugar deixado vago por Ricardo Lewandowski que, por sua vez, substituiu Dino no Ministério da Justiça, assim mesmo, sem anestesias, nem quarentenas.

Por isso, o Brasil que não acredita no executivo, nem no legislativo, mas confiava no poder judicial que teve a coragem de punir os militares golpistas vira-se agora para o STF e diz, como Júlio César na hora da morte: “Até tu Brutus?”

Jornalista, correspondente em São Paulo

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