Aqui d"el rei, que dependemos da China em metais críticos!

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Até 2050, a UE estima que a sua procura de lítio será 16~57 vezes superior à atual e que os metais críticos serão em breve tão ou mais importantes como o petróleo e o gás. Há já algum tempo que é evidente que para atingir o "Net Zero" em 2050 (ou 2060 ~ 2070, para ser mais realista...) vai ser necessário uma muito maior quantidade de metais críticos e dos minérios de cuja refinação provêm. As políticas públicas para atingir aquela meta e diminuir a produção dos gases com efeito de estufa importam, por consequência, um aumento significativo da mineração e da refinação desses minérios. Os responsáveis pela definição e execução de políticas públicas devem assumir isso de forma clara.

Numa notável intervenção por ocasião da visita oficial à China, em Março de 2023, a presidente da Comissão Europeia, após mencionar o Net-Zero Industry Act como uma parte fundamental do Plano Industrial Green Deal da UE, reiterou o objetivo europeu "de ser capaz de produzir pelo menos 40 % das tecnologias limpas de que necessitamos para a transição verde". Ursula von der Leyen está ciente de que, para atingir este objetivo, a UE precisa ter mais independência e diversidade no que respeita aos fatores essenciais necessários para a sua competitividade na transição energética. E exprimiu abertamente a sua preocupação com a enorme dependência em metais críticos "de um único fornecedor -- a China -- para 98% do nosso fornecimento de terras raras, 93% do nosso magnésio e 97% do nosso lítio -- só para citar alguns."

Se adicionarmos a indústria extrativa de minérios a partir dos quais se faz o processamento químico para os metais críticos, a relevância de empresas [estatais] chinesas também é avassaladora - seja nas terras raras, no lítio, no cobalto, no níquel, no cobre, na grafite. Embora muita informação estatística refira a extração mineira por país, é importante perceber que empresas em concreto procedem a essa extração e como se integram na cadeia de valor. P. ex., embora c. 70% do cobalto provenha de minas na R. D. Congo, a maioria dessas minas são exploradas por empresas chinesas. Mesmo num contexto político em que o atual presidente da R. D Congo declarou estar descontente com várias dessas empresas chinesas e querer substituí-las, a verdade é que nenhuma empresa americana ou europeia manifestou intenção firme de nelas investir.

A estratégia chinesa é clara e tem décadas de execução. Até recente data, é duvidoso que tenha existido uma estratégia americana ou europeia em relação aos metais críticos. Agora que na Europa se estão a fazer investimentos (e ajudas de Estado) vultuosos na produção de veículos elétricos, em gigafactories e noutras vertentes da mobilidade e do armazenamento elétricos, lá aprovou a UE (em 2020!) uma lista atualizada das "matérias-primas essenciais" (MPE) e a criação de dois IPCEI (porque não está Portugal nestes IPCEI quando temos 3 empresas na Aliança Europeia das Baterias?...).

São absolutamente legítimas as preocupações expressas pela presidente da Comissão Europeia quanto à enorme dependência e vulnerabilidade da Europa e das empresas europeias a fornecedores externos de metais críticos. Mas o que têm feito as autoridades europeias (e nacionais...) e as empresas relevantes europeias para evitar isso?

Consultor financeiro e business developer
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