Aos 270 anos, Mozart estará em Portugal

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Amanhã terá início o I Congresso Internacional Mozart e o Seu Tempo, que pretende afirmar-se como um marco científico e cultural no panorama dos estudos mozartianos, ao colocar Lisboa no centro das comemorações internacionais dos 270 anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). A ter lugar entre 22 a 24 de janeiro no Palácio Nacional da Ajuda, o congresso destaca-se por ser o único encontro académico mundial inteiramente dedicado ao compositor neste ano comemorativo, a par dos grandes festejos internacionais e musicais que decorrem na sua cidade natal, Salzburgo.

Organizado pelo Departamento de História, Artes e Humanidades da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), em parceria com o Palácio Nacional da Ajuda e a Parques de Sintra - Monte da Lua, o congresso conta ainda com o apoio científico e financeiro do CIDEHUS - Universidade de Évora (pólo CIDEHUS-UAL), no âmbito da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do Centro de Investigação das Ciências Históricas (CICH), da UAL. Esta sólida articulação institucional reforça o posicionamento do evento como um espaço de excelência académica e de projecção internacional da investigação produzida em Portugal.

A relevância científica do congresso reflecte-se, desde logo, na escolha dos seus keynote speakers. A sessão inaugural está a cargo de Rui Vieira Nery, figura central da musicologia portuguesa, que falará sobre a música portuguesa no contexto do final do século XVIII no Sul da Europa, enquanto a dimensão internacional é assegurada por Simon Keefe, da Universidade de Sheffield, um dos mais reconhecidos especialistas mundiais em Mozart, que abordará a importância dos “Mistérios de Ísis” na recepção da Flauta Mágica em França, no início do século XIX.

Outra musicóloga e cantora lírica, Rosana Marreco Brescia, ainda irá abordar a ópera Don GIovanni no Brasil do início de Novecentos. As suas intervenções estabelecem um enquadramento crítico amplo, combinando abordagens historiográficas, analíticas e culturais sobre o compositor e o seu tempo, numa dimensão internacional e atlântica.

Ao longo do congresso, um conjunto alargado de investigadores nacionais e internacionais aprofundará temas inovadores e interdisciplinares. Destacam-se, entre outros contributos, Cristina Fernandes e Maria João Albuquerque, centradas no manuscrito de Mozart pertencente à colecção do Palácio da Ajuda e de Rodrigo Teodoro de Paula, que apresentará a uma versão do Requiem, num manuscrito que se encontra em Évora. Estes estudos revelam não só importantes fontes e novas perspectivas, mas também o papel de Portugal nas redes culturais europeias do século XVIII.

A reflexão sobre o contexto histórico e artístico do tempo de Mozart será igualmente enriquecida por intervenções como as de Carlos Boavida, sobre a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755, Ralf Martin Jäger, que abordará a relação entre Viena, Mozart e o mundo otomano, e de José Manuel Fernandes, numa análise comparativa da arquitectura na Europa Central e em Portugal. Este cruzamento disciplinar evidencia o impacto dos grandes acontecimentos políticos, urbanos e culturais da época.

Além da vertente académica, o congresso apresenta momentos culturais, como o concerto da orquestra Ludovice Ensemble, no Palácio Nacional da Ajuda, na sexta-feira, às 18.30, dedicado exclusivamente à obra de Mozart, e a exibição da Escola de Arte Equestre Portuguesa, reforçando a ligação entre investigação, património e fruição artística.

No seu conjunto, o I Congresso Internacional Mozart e o Seu Tempo prevê um impacto significativo na comunidade científica, ao promover novas leituras sobre Mozart, valorizando fontes pouco conhecidas e por afirmar Portugal como um espaço relevante na investigação internacional sobre o compositor, já que faz parte de um projecto de investigação da Universidade Autónoma de Lisboa, que reúne professores, estudantes e investigadores, projecto esse que encerrará em 2031, com o II Congresso Internacional com o mesmo nome.

Mais do que uma celebração comemorativa, este evento pretende ser um fórum de debate crítico e interdisciplinar, abrindo caminhos para futuras colaborações e projectos de investigação no campo da musicologia e da história cultural europeia, com futuras publicações, aproximando, assim, a comunidade científica da sociedade civil.

(Para mais informações, consultar a respetiva página online).

Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

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