Ao correr da pena (e do computador)

Publicado a

Estes dias que precedem as grandes escolhas deixam aquele que escreve sem tema fixo, ao correr dos dias, (podem chamar-lhe cronista) preso numa paralisia própria de quem enfrenta a Medusa da incerteza, sem um espelho que lhe permita vê-la, mas não a olhar de frente.

Não tenho mais nem melhores argumentos para explicar o meu voto em António José Seguro (posso revelar, hoje ainda não é o dia de reflexão...) do que todos aqueles que têm sido apresentados pelos que fizeram a mesma escolha. Mas a paralisia ante a Medusa da incerteza torna difícil desenvolver outro tema, pegar noutro assunto, e tão saudável seria podermos descansar o espírito e a escrita de tanta política!

É que as torres de marfim, além de caríssimas, tornaram-se ilegais, face à necessária proteção dos elefantes, e por isso já não há poetas que as venham construir, com parnasiana paciência.

Mas a poesia e a arte continuam a abrir janelas novas e inesperadas à nossa consciência do mundo. António Damásio, no seu último livro A Inteligência Natural e a Lógica da Consciência, valoriza, no âmbito da consciência, o corpo inteiro e os seus mecanismos de regulação, acentuando a importância-chave dos sentimentos na nossa ação e no nosso pensamento, contra a redução da consciência a um sistema meramente cognitivo. E o papel da arte e da poesia na formação dessa consciência superior ajuda a confirmar-nos como humanos.

Mas há, como lembrava Espinoza, paixões alegres, que estimulam a nossa capacidade de pensar, de agir e de inovar, e paixões tristes, que nos encerram em nós próprios e nos nossos fantasmas e instintos de morte, a caminho da destruição final.

Num livro estimulante (e, de certo modo, inesperado) de Francisco Louçã, A Imaginação, podemos entender como qualquer mudança depende da nossa capacidade de antecipar com a imaginação a ideia de mundos possíveis e de alternativas ao que está. Daqui podem ocorrer utopias e distopias, progressos reais e cruéis desilusões, mas essa capacidade antecipadora (de que Ernst Bloch falou) é essencial à nossa ação e à nossa consciência.

A política é e deveria ser uma troca de argumentos num espaço público racional. Mas não a podemos obviamente separar dos sentimentos: agem na política a paixão alegre da solidariedade e da inclusão contra a paixão triste e mortal do ressentimento e da exclusão. A força da vida contra a impotência mortal do ressentimento.

O leitor compreenderá que nestes dias tudo aquilo em que tocamos, pobres cronistas, se torna em política, como o rei Midas fazia nascer ouro onde quer que tocasse. Mas o rei Midas morreu de fome, porque o ouro não é comestível, e o cronista receia não ser bem compreendido pelos seus leitores por poder ter sido confuso na sua exposição, reiterando então que, pela solidariedade e pela inclusão, pela liberdade e pela alegria, vai votar em...

Ah! Já sabem? Estão seguros?

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
www.dn.pt