António José dos Santos, um dos melhores portugueses num tempo em que não existia adolescência

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Nesta crónica semanal, para mim uma conversa sempre a dois com quem me lê, tento que os temas acrescentem a uma agenda mediática menos larga do que aquela que seria necessário. Tenho o prazer de colaborar num jornal que tem feito o esforço assinalável de trazer novos temas, protagonistas e ângulos de abordagem. Pela minha parte tento fazer o mesmo. Escrevendo sobre o cooperativismo, claro. Mas tentando, a partir da atualidade ou fora dela, propor novas perspetivas que contribuam para o pensamento de decisores e cidadãos.

Hoje, primeira crónica de 2026, permita-me uma nota pessoal. Uma nota que é, ao mesmo tempo, um justo abraço a uma das pessoas mais importantes da minha vida, mas também um dos melhores portugueses. Falo de António José dos Santos que, com o seu irmão gémeo José António, construiu um império a partir do negócio quase inexistente que herdou – talvez mais do que um negócio foi uma herança de destino, qualquer coisa que existia antes de existir. A Valouro, maior grupo económico do setor agroalimentar e um dos maiores da Europa, foi um milagre que, de milagre, pouco ou nada teve.

Não é a empresa que quero trazer. Nem a sua passagem pela Caixa Agrícola de Torres Vedras que liderou durante trinta e três anos e cinco meses e de que é presidente emérito. É que hoje se completam setenta anos sobre o dia em que começou a trabalhar com carteira profissional. Merecia duas reformas do Estado português se, porventura, lhe passasse pela cabeça a longínqua hipótese de deixar de trabalhar.

Quero falar-lhes de um homem único que começou o seu percurso profissional quando veio para Lisboa com catorze anos e se matriculou na Escola Industrial Afonso Domingues. Estudava de manhã e trabalhava no resto das suas horas no armazém do tio Manuel dos Santos, no Largo dos Trigueiros. Eram já os frangos, mas nas décadas seguintes é graças à ousadia e inteligência dos dois irmãos, que o negócio foi tendo dezenas de ramificações que nunca mais pararam de multiplicar.

António José é um homem alto. Um homem que gosta de ouvir e de decidir. Um homem que pensa em tudo, antes de tudo existir. Tem um permanente foco. Mesmo dentro dos seus pensamentos e leituras, mesmo em conversas sérias ou ocasionais, ele está sempre focado no que pode nascer, e não naquilo que já nasceu. É uma pessoa densa. A originalidade, o paradoxo se quiser, é que apesar dessa característica encara todos os temas como se o simples, o fácil, não existisse. Talvez seja uma marca genética ou um sinal do combate que foi a sua vida, mas dentro do seu universo a vida que quis fez-se da ausência de facilitismos, uma responsabilidade pela parábola dos talentos de que é fiel protagonista.

Sabe tudo sobre o seu negócio. E tudo, é tudo. Rações máquinas, contabilidade, negócios e condição humana, tanto as sombras como as matérias de coração, dos afetos e sonhos. Ninguém o engana, talvez só ele próprio quando está para aí virado. Faz parte de uma elite de empresários saída da revolução de 1974. O fim dos constrangimentos industriais e a abertura económica ofereceu-lhes a possibilidade de serem donos do tempo e das suas opções. É curioso que António e José mantêm a marca de responsabilidade social de algumas das maiores empresas do Estado Novo, uma responsabilidade social antes da responsabilidade social existir enquanto conceito. Conheci muitos empresários dessa geração, gente que tinha um projeto para a sua indústria e para Portugal e que davam pouca importância ao dinheiro não utilizado em investimento.

O dinheiro nunca foi um fim antes um meio ao serviço de um sonho maior – pensar grande para o país.

António José é um iluminado. Tem um sorriso e um humor tranquilos. E é muito bonito celebrar setenta anos de vida de trabalho árduo que continuará a ser a sua marca de água até ao fim dos tempos. Um orgulho vê-lo a trabalhar hoje todos os dias como se tivesse mais futuro do que passado. Na verdade, tem mais futuro do que passado.

Apesar das muitas horas de proximidade, faço questão de lhe dizer uma coisa: as horas que passámos ainda não mataram a curiosidade que tenho sobre si e que sempre me acompanhará. Há sempre uma cena para o próximo capítulo, há sempre uma nova temporada com ideias que ambicionam mudar tudo do avesso. E isso é raro e constitui verdadeiramente o seu encanto maior.

Agradeço-lhe pelo Grupo que construiu com o seu irmão. Sem dívidas e que vale mais de mil milhões e fatura quase igual valor e com o qual criou tantas oportunidades de emprego e vida para terceiros. Agradeço também o projeto que construiu na Caixa Agrícola de Torres Vedras caminho de igual sucesso e com valores que nos transformam numa caixa absoluta e radicalmente independente e que permite ter hoje um projeto de eficiência social virado para a comunidade de Torres Vedras. Agradeço à família o Projeto da Misericórdia da Marteleira que acolheu tantos desvalidos e doentes sem lugar digno. Mas aquilo que mais lhe agradeço é o sentido do trabalho e da responsabilidade que herdei e tudo aquilo que não se explica, o que as palavras não conseguem explicar.

Que vida a sua, caro António José.

Um bom ano para si. E para si também, aquele com quem “falo” todas as semanas, agradeço – lhe os seus 70 anos de trabalho profissional que nos recordam que afinal nem sempre existiu adolescência.

Muitos parabéns.

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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