Angola, Adalberto e a verdade

Depois do falecimento de José Eduardo dos Santos, da novela entre a sua família e o seu sucessor, das eleições gerais e respetivos observadores, dos resultados provisórios, finais e sempre questionáveis, o assunto de Angola prepara-se para adormecer novamente na praça pública.

Apesar do jeito quase unânime com que testemunhámos, da esquerda à direita, o amém da democracia portuguesa ao regime angolano, o interesse no desenlace do seu processo eleitoral desvaneceu-se de forma súbita, sorrateira e muito conveniente.

Acredita quem quer, obedece quem deve, ignora quem pode.

Para um país supostamente democrático, é estranho ver civis detidos por darem entrevistas a televisões estrangeiras. Para um partido que supostamente ganhou uma maioria absoluta, viram-se poucas celebrações do MPLA nas ruas de Angola. Para um homem que supostamente foi derrotado, veem-se bastantes aplausos na direção de Adalberto Costa Júnior - inclusivamente no funeral de José Eduardo dos Santos, a que compareceu.

Além do que podemos intuir e do que está diante dos nossos olhos, a lógica é boa conselheira quando analisamos uma realidade onde o acesso à informação é limitado, distorcido e frequentemente vítima de propagandismo. Uma semana depois da primeira divulgação de "resultados" e da primeira reação da UNITA, Adalberto Costa Júnior veio anunciar a rejeição total dos números finais da Comissão Nacional Eleitoral de Angola.

À distância, qualquer Salomão mais conivente poderia alvitrar: por que haveremos de confiar na palavra de um partido que alega sistematicamente fraude eleitoral? Ora, por um lado, porque a previsibilidade de uma alegação não lhe retira legitimidade ou plausibilidade; por outro lado, porque é extraordinariamente difícil acreditar que Adalberto Costa Júnior está a mentir. É mesmo. O meu caro leitor repare. Que mentiroso clamaria ter provas do que diz e pediria ao seu adversário para as comparar com as suas? Nenhum. Que mentiroso diria ter como provas ‒as cópias das atas-síntese, distribuídas a todos os partidos concorrentes ‒ e convidaria uma comissão internacional para as vir avaliar? Nenhum. Que mentiroso reuniria todas as atas-síntese das mesas de voto, contaria todos os votos e se sujeitaria à humilhação de ser desmentido pelos outros partidos da oposição, que também têm acesso às atas, e pela comunidade internacional? Nenhum.

A força de Adalberto Costa Júnior é, antes de mais, a sua credibilidade institucional. Dizer que "a UNITA ganhou as eleições" sem provas que o confirmassem seria sacrificar essa credibilidade - coisa que Adalberto, diante de um regime podre e sem apoio popular, não tem qualquer interesse em fazer.

Na última semana, recebi centenas de mensagens de cidadãos angolanos com cara, nome e família. Não eram bots de redes sociais, nem apparatchiks partidários. Eram pais de família, jovens trabalhadores, parte de um povo que anseia por democracia. "Estamos cansados de tanto sofrer", escreveu-me a Anusca. "Ninguém fala a verdade aqui, ninguém pode", contou-me a Odete, de Luanda. "Estamos num poço sem fundo", disse-me a Luísa, do Huambo. "As crianças morrem desnutridas e mal há água potável", relatou-me uma técnica do Hospital Municipal do Uíge. "Mandavam os hotéis das províncias não acolher a caravana do líder da oposição durante a campanha", revelou-me alguém que preferiu o anonimato. "Somos bombardeados com fake news", queixou-se o Paulo, cujo acesso à informação mais livre é feito através de canais portugueses. "O MPLA não ganhou as eleições. Ajuda-nos", pediu Heraclito. "Estou cansada de ver o meu povo morrer", lamentou Patrícia, de apenas 23 anos.

A partir deste verão, Angola passará a ter um ditador de um lado e um presidente-eleito do outro.

Portugal pode ter escolhido o primeiro.

Tenho muitas dúvidas de que os angolanos tenham feito o mesmo.

Colunista

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