Afinal, o que se passa com o Natal?

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Nos últimos anos, o Natal tem sido uma espécie de parente pobre das festividades. É certo que a festividade é católica e que, portanto, para quem professa esta fé, tem um significado muito diferente do que para os restantes. Mas não é menos verdade que o Natal é muito mais do que a celebração do nascimento de Jesus Cristo – transformou-se, com o passar das décadas, numa festa cultural em que todos temos mais presentes valores fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade mais generosa e justa.

Falamos de partilha, de amor, de renascimento, de cuidado, de atenção, de empatia. Valores que nos deviam acompanhar todos os dias, é certo, mas que não faz mal ter em particular atenção em determinados momentos. No entanto, surgem cada vez mais movimentos contra a celebração do Natal, como se ignorar uma festa que cruza tradições cristãs e pagãs fosse um dos maiores pecados de uma sociedade – curiosamente, algo que geralmente só acontece com efemérides que simbolizam, também, alegria e comunhão.

Ora, o nascimento de Jesus Cristo é, em si, um acontecimento cheio de simbologia que pode ser interpretado apenas como metáfora para quem não tem qualquer tipo de fé: um homem que nasce na simplicidade de uma manjedoura, depois de os pais terem sido rejeitados por quem se diziam ser pessoas de bem, cercado dos considerados menos dignos da sociedade – os animais, os pastores , e que é visitado por reis de vários povos quando ainda não saiu das palhas em que o deitaram. Um menino que juntou povos, nações e estrelas, que cresce numa família pouco tradicional – afinal, José não é seu pai! – e que ensina, ao longo da sua vida, que a dignidade pode e deve ser encontrada em cada ser. Nos cobradores de impostos, nas prostitutas, nos inválidos, nos doentes e nos filhos malcomportados.

Jesus Cristo aparece-nos, na verdade, como um rebelde da sociedade, ao expulsar vendilhões dos templos, ao recusar as tentações do Diabo e ao desafiar uma multidão a apedrejar uma mulher, sob garantia de que eles próprios nunca tinham pecado – ninguém o fez! Neste tempo de Natal que agora nos preparamos para celebrar, talvez fosse bom olhar para toda a história que a Bíblia nos conta – encarando-a como um conto de Grimm ou um registo Histórico – e perceber se não nos estamos a parecer demasiado com aqueles que fecharam as portas a Maria e a José na noite antes do nascimento. Porque, afinal, o Natal é precisamente sobre isto. Sobre a oportunidade de nos darmos a nós próprios o dom do renascimento.

Boas Festas!

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