A resolução do BANIF, por quem os sinos dobram

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Este ano perfazem-se 10 anos sobre a data em que ocorreu a resolução do BANIF. Prova de que não nos podemos transformar naquilo que não somos. Digo e escrevo muito esta frase. E não o faço para me convencer, pelo contrário. É uma das convicções mais absolutas que a vida me ofereceu. E isso vale para a nossa intimidade, para a nossa relação com os outros e para a identidade dos projetos em que trabalhamos.

Comemorámos este ano o cooperativismo em todo o mundo. Uma iniciativa das Nações Unidas que nos honra, mas também responsabiliza. O ano passado o Nobel da Economia foi atribuído ao nosso setor. As cooperativas, hoje mais do que nunca, são necessárias, harmonizam procedimentos, pessoas e Instituições e elevam a ética e a transparência na comunidade em que estão inseridas, caso tenham relevância. Se são relevantes têm legitimidade.

São uma reserva de segurança num mundo imprevisível. São terra firme num tempo em que tudo parece ser volátil. Uma cooperativa tem um modelo próprio, não é uma sociedade anónima ou um banco comercial. As caixas agrícolas existem para ser eternas – sabendo que a eternidade depende sempre do sopro humano. Mas é mesmo assim, são instituições próximas das populações, nasceram para que “vencidos” pudessem resolver problemas somando a sua vontade a outras vontades. Por isso, a Caixa Agrícola de Torres Vedras tem 110 anos, foi feita para durar e não para atuar de acordo com riscos agressivos e elevados rácios de transformação atingindo escopos lucrativos desmesurados.

Não podem existir nuvens no horizonte quanto aos princípios cooperativos, estes são a nossa magna carta e o nosso salvo conduto para o futuro.

Tenho a responsabilidade de não abdicar da virtude do questionamento. Devemos fazê-lo sempre, é esse o nosso dever. Há vários casos, um pouco por todo o lado, de cooperativas que desejando ser sociedades anónimas – por ganância, ambição ou falta de conhecimento e preparação – faliram em muito pouco tempo. Traíram a sua identidade para se sentarem à mesa dos que, supostamente, eram donos do jogo e, na larga maioria dos casos, arruinaram-se rapidamente. Perderam tudo o que tinham por desvalorizarem estupidamente o tanto que tinham. E nunca tiveram sequer o respeito do sistema financeiro. Ruíram materialmente e na sua credibilidade.

Em Portugal, a história do BANIF é interessante. Horácio Roque, com a aliança do governo regional de Alberto João Jardim, herdou a Caixa Económica do Funchal e daí nasceu o BANIF.

De uma Caixa Económica mutualista – ligada à Associação de Socorros Mútuos – passou-se para uma sociedade anónima.

De projeto mutualista que servia a população, passou-se para uma ideia que ambicionou ser universal. O BANIF quis operar em todo o país, nos mercados da emigração madeirense, ser cotado em bolsa e arriscou tudo sem ter uma capitalização adequada. Deixou de ter identidade, perdeu-se a confiança e acabou vendido aos espanhóis do Santander sem honra e glória.

Podia não ter acontecido.

Também aconteceu com o Northern Rock. Era um projeto financeiro com uma identidade fortíssima, tinham nascido como uma sociedade de construção (cooperativa) em Newcastle em meados do século XIX. De acordo com as políticas ultraliberais quiseram ser mais, quiseram ser tudo. Na década de 1990, ancorados num enorme prestígio, decidiram-se pela desmutualização para, sem barreiras, poderem entrar no mercado bolsista e multiplicar as poupanças e os créditos em dinheiro a sério. Uma cooperativa que tinha 150 anos morreu em menos de vinte – em 2008 o governo britânico nacionalizou o NR para evitar uma contaminação financeira.

Perderam tudo o que tinham, a começar pela honra de tantos que dedicaram a sua vida ao bem comum da sua comunidade.

Volto à frase inicial: não nos podemos transformar no que não somos. Nunca dá bom resultado.

Tenho o dever e a responsabilidade de alertar, de estar vigilante, de fazer a minha parte. Em 2018 e 2020, este Conselho de Administração, foi interpelado com o “canto de sereia centralista” que pressupunha duas sociedades anónimas e a pergunta se queríamos ser sociedade anónima ou cooperativa, a resposta foi educadamente dada em 15 minutos com café incluído e encerrada com o argumento que tínhamos muitos processos de crédito para despachar.

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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