A nova Casa Branca e o Médio Oriente

Poucos dias antes da mudança na Casa Branca em Washington, o governo israelita reconheceu a construção de 780 mais 2600 novos apartamentos para os colonos judeus na Cisjordânia. Em 2020 eles decidiram construir cerca de 12 mil novos apartamentos e durante a administração do presidente Trump foram construídas 27 mil novas casas no total.

Não é uma surpresa ouvir em Israel que Trump foi o líder americano mais pró-israelita de todos os tempos, não apenas por ter mudado a Embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, mas também por causa da sua posição sobre a ampliação dos colonatos na Cisjordânia.

A última decisão sobre os 780 apartamentos soa como um gesto de despedida do governo do primeiro-ministro Netanyahu ao atual governo americano, em antecipação aos problemas que virão com a nova administração. Todos esperam que Joe Biden e os seus associados no Departamento de Estado não encorajem a política atual dos israelitas na Cisjordânia. Mas a única questão é até que ponto eles estão dispostos a ir na reversão do que foi feito pelo governo anterior. Mesmo que pareça fácil cancelar o que o presidente Trump aprovou no Médio Oriente, é demasiado otimismo acreditar que isso vai acontecer.

O novo presidente americano estará sobrecarregado de problemas na política interna dos EUA. Existem danos, deixados pela administração Trump, que têm de ser resolvidos imediatamente, antes de se olhar para o exterior. O momento é extremamente difícil para a equipa de Biden e a prioridade não estará focalizada muito longe da Casa Branca. Os israelitas sabem que depois de 20 de janeiro não devem "fazer ondas" com frequência e é por isso que a decisão sobre os novos apartamentos é tomada antes.

O primeiro-ministro Netanyahu encontrará certamente uma maneira de se conectar com o novo presidente americano, mas ele tem de ficar fora do seu foco por um certo período de tempo, para deixá-lo trabalhar na "unidade da nação" e na pandemia da covid-19, o que vai ser extremamente difícil. Se, ao mesmo tempo, Israel se tornar um problema, isso poderá ser demais até para o aliado tradicional.

Só depois de as coisas arrefecerem, o Médio Oriente voltará às prioridades da Casa Branca. Portanto, Israel tem de esperar, o Irão tem de esperar, os palestinianos têm de esperar, assim como todos os outros que esperam algo do novo presidente americano.

A questão é se eles saberão como fazê-lo.

Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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