Num pequeno país africano, uma jovem recém-formada em enfermagem numa universidade europeia hesita. O diploma está na mala, o visto europeu também. Na sua cidade natal, o hospital central tem um médico para cada cinco mil habitantes e dar-lhe-ia um salário de cerca de 250 euros por mês, irregular no pagamento, com um vínculo laboral dependente das simpatias políticas e pessoais do seu diretor. Numa capital europeia, oferecem-lhe um contrato de trabalho, um salário digno, a possibilidade de pagar renda e constituir família. Escolhe a Europa. E quem a pode censurar? O dilema da Educação nos países em vias de desenvolvimento raramente é discutido com a frontalidade necessária. Formamos, localmente ou no estrangeiro, jovens qualificados que, uma vez munidos de competências e diplomas, encontram na emigração a única via de realização profissional e pessoal. E têm o direito absoluto a ambas. Cada engenheiro, cada médico, cada enfermeiro que parte representa simultaneamente um sucesso individual e um fracasso coletivo.A Organização Mundial de Saúde estima que a África Subsaariana terá um défice de 5,3 milhões de profissionais de Saúde em 2030. Só do Gana partem 500 enfermeiros por mês para o Ocidente. O Reino Unido emprega hoje mais enfermeiros ganeses do que o próprio Gana. Na Nigéria, há um médico para cada cinco mil habitantes - oito vezes pior do que a recomendação da Organização Mundial de Saúde -, enquanto milhares de médicos nigerianos trabalham no Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS): 25% dos trabalhadores do NHS são nigerianos. Um estudo recente da UNCTAD calcula que a fuga de cérebros custa ao continente africano cerca de quatro mil milhões de dólares anuais.As causas são conhecidas e repetidas até à exaustão: instabilidade política crónica, economias frágeis ou inexistentes, salários impossíveis, ausência de cuidados de saúde, proteção social e de educação que permitam constituir família com alguma segurança. O salário médio de um médico pode ser de sete a nove mil dólares mensais na América do Norte; em muitos países da África Ocidental, o mesmo profissional receberá 400 a 600 dólares.O paradoxo é evidente para os doadores internacionais e para os países empenhados na cooperação para o desenvolvimento. Investir na formação é fundamental e ninguém defende seriamente o contrário. Mas investir massivamente em Educação, sem que existam condições mínimas de fixação, pode equivaler a simplesmente financiar a fuga de quadros que perpetua a dependência. Como escreveu recentemente um académico africano, o continente tornou-se o doador mais generoso do mundo: exporta o que é escasso e importa o que é caro.Algumas pistas têm sido ensaiadas. O Gabão anunciou que deixará de conceder bolsas para estudos em França, nos Estados Unidos ou no Canadá a partir de 2026. A Nigéria suspendeu programas de intercâmbio académico. Outros países experimentam bolsas condicionadas, com contratos que obrigam ao regresso e ao trabalho no setor público durante um período determinado. A diáspora é mobilizada através de programas de transferência de conhecimento, permitindo contribuições remotas sem exigir o regresso definitivo.A honestidade obriga-nos ainda a reconhecer outra dimensão, que não permite a alteração dos incentivos em causa. A Europa envelhece e necessita de mão de obra qualificada. A Alemanha precisará de quase 300 mil novos trabalhadores estrangeiros por ano até 2040 apenas para manter a sua força de trabalho atual. Há uma hipocrisia latente em lamentar a emigração africana enquanto se beneficia dela, em financiar a formação de quadros que depois se recrutam ativamente.Não há soluções simples, mas a cooperação internacional não pode continuar a separar artificialmente Educação, governação, Saúde e Economia, em círculos viciosos intermináveis. Formar quadros para aplacar consciências sem simultaneamente contribuir, de forma real, para a estabilidade institucional e para o crescimento económico local é só alimentar esta disfunção.Sem medo de acusações neocoloniais. O desenvolvimento sustentável exige que os países recetores assumam responsabilidades acrescidas, financiando não apenas a formação, mas também as condições que tornem o regresso uma opção viável e não um sacrifício. Respeitando-se que, pelo meio, estão sempre as vidas das pessoas, assentes na sua conjuntura, que sonham e decidem hoje e não num futuro ideal. E devem fazê-lo com liberdade - mesmo sabendo-se que a falta de esperança e a pressão do curto prazo são dos maiores inimigos do desenvolvimento. Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa