A espuma do tempo

Pelos motivos que citarei, voltei nesta data insegura, a recordar notas que elaborei num encontro de 2006, e repetir algumas, lembrado por Weber de que todo o saber será contestado. Isto porque parece que a capacidade de intervir com o discurso da cólera faz crescer o risco do desastre. Admitir que um discurso parlamentar possa ter como resposta desencadear movimentos de massas que desrespeitam templos, que apelam ao combate, que apoiam o recurso a violações sem fundamento em Livros Santos, tem que ver com a natureza internacional do Estado que os consente, ou que os apoia, ou que os inspira. Estamos então em face de um perigo que exige prudência, mas que não consente descaso. Exige que a teatrologia dos discursos não diminua a visibilidade dos desafios, tecendo um véu de ignorância sobre as exortações que de longe convidam a meditar sobre a decadência da Europa. É grave tomar os moinhos por gigantes; é pior tomar os gigantes por moinhos.

O apoio das políticas consistentes depende muito da capacidade diplomática de conseguir chegar aos factos atempadamente, sem oposição daquilo que foi chamado - o deserto do real. E assim chegamos a uma das mais desafiantes circunstâncias que interpelam a capacidade diplomática com autenticidade, a qual se traduz no que chamaria o véu da incapacidade ou ignorância que, como resultante em cuja génese estão muitas das notícias e referências alteradas, que se interpõe entre os cidadãos, os eleitorados, a vontade política dos cidadãos e os governos. Para tornar a situação internacional ainda mais preocupante, do ponto de vista da paz e segurança, e do que resulta dos factos que podem ser impostos por fiáveis, cresce a preocupação sobre a cortina de ignorância que vai sendo aparecida em mais de um domínio das relações internacionais, e que corta o acesso das populações interessadas ao conhecimento da realidade. Não se trata sempre da área reservada ao segredo de Estado, uma temática subordinada à disciplina do Estado de Direito, que introduz limitações claras. Mas essa área também aparece submetida ao assédio dos meios de comunicação social de variadas sedes, orientações, interesses e dependências, criando frequentemente equívocos que desafiam a distinção entre o reservado, a dimensão violada, e sobretudo a área apenas presumida mas divulgada pela curiosidade legítima ou abusiva apoiada pela colheita.

Trata-se neste ponto de uma fragilidade agravada pela frequência com que a mentira real dos clássicos é abusada contra os poderes políticos, uma prática que inevitavelmente excita as referidas práticas do assédio à reserva governativa, e parece levar a uma subjacente e paliativa doutrina de equilíbrio e legitimação dos enganos. A frequência e ritmo dos desmentidos, correções, reinterpretações, envolventes do caudal de notícias relacionadas com os mais desafiantes conflitos de projetos, de interesses, e de comportamentos dos governos ou dos seus representantes, não pode deixar de contribuir para debilitar a segurança da opinião pública no sentido de orientar os seus apoios ou recusas em relação às políticas seguidas ou propostas pelos respetivos governos ou instâncias internacionais.
Nos conflitos armados que fazem parte da herança deixada pelo século XX, foi-se tornando longa a lista de profissionais dos meios de comunicação que foram sacrificados na árdua tarefa de surpreender o real, e darem assim um testemunho confiável do processo em que, pela maior parte, as populações são mais destinatárias dos efeitos do que participantes nas causas. E todavia o sacrifício torna-se mais angustiante sempre que os factos posteriores mostram, mais incidentalmente do que por contrição, que uma parte do real foi subtraída à observação pela eficiência da teatrologia em exercício. Uma teatrologia que vai acompanhada do perigo de analistas e comentadores não terem sempre a capacidade de serem bem-vindos ao mundo do real, frustrando-se o objetivo de ajudar a iluminar, racionalizar, tornar consistente a visão pública dos complexos processos que se cruzam e tecem um emaranhado de dependências. Fazendo um balanço da longa vida, escreveu Madeleine Albright: "À medida que vou envelhecendo, lembro-me cada vez com mais frequência de um bom católico - um amigo de um amigo - cujo epitáfio preferido rezava assim: "Deixo o mundo como nele entrei: confuso".

A convicção de que o poder da palavra pode vencer a palavra do poder, parece corresponder a uma organização constitucional em que as éticas sejam igualmente partilhadas entre responsáveis, embora empenhados em visões diferentes da realidade desafiante. A visão da "alegria coberta de lágrimas", que anunciou o fim da guerra de 1939-1945, mundializou a esperança de uma reorganização mundial vinculada à justiça global. Passados estes anos breves, a espuma do tempo leva a humanidade aos riscos que a ONU e a UNESCO avisam de perigosos e eminentes.

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