"Deus está morto”, proclamou o filósofo Friedrich Nietzsche nos finais do século XIX. A frase queria no fundamental dizer que a religião, mormente a cristã, havia deixado de ser a fonte de referência dos valores tradicionais e que uma nova era exigia um quadro moral diferente. Tratava-se de chamar a atenção para a necessidade de ultrapassar a fase de desorientação que sempre acontece quando há uma mudança de paradigma e de um apelo à reflexão sobre o futuro.Hoje, se fosse vivo, Nietzsche faria talvez a sua personagem dizer que “a ordem internacional morreu”. Uma afirmação assim significaria que a arquitetura legal e institucional global, que entrara em estado de coma em fevereiro de 2022, tinha acabado por se extinguir neste princípio de ano, após os acontecimentos e as proclamações recentes que abalaram a cena internacional.Seguindo essa linha de pensamento, poderia dizer-se que vivemos atualmente um período de niilismo político e moral. Ou seja, as normas fundamentais no relacionamento entre Estados, como entre outras a inviolável soberania de todos, a proibição do uso da força na resolução dos diferendos, ou a não-intervenção nos assuntos internos de outros, vêm sendo abertamente desrespeitadas por potências globais. Como foi dito recentemente numa entrevista ao diário New York Times, o único quadro moral que parece prevalecer é aquele definido por quem detém o poder. Essa é a essência do niilismo. As instituições e as convenções são vistas como obsoletas, ineficazes, e logo a desprezar. Assim acontece, entre outros, com o sistema das Nações Unidas, que tem sido progressivamente marginalizado pelos dirigentes das grandes potências.É neste contexto confuso e incerto que irá decorrer o encontro de Davos deste ano, entre 19 e 23 de janeiro. Centenas de líderes, vindos das diferentes partes do mundo e das áreas da governação, dos negócios e das associações de cidadãos, reunir-se-ão na localidade suíça num “espírito de diálogo”, que é o lema do encontro. É bom falar-se em diálogo, numa altura em que este tanta falta faz. E, sobretudo, evitar-se uma atitude de cansaço e de cinismo perante a complexidade das novas realidades. Os desafios atuais pedem coragem, franqueza e mais habilidade diplomática. Diálogo, na verdade.Pela primeira vez, espera-se uma participação em larga escala do Sul Global. Este facto lembra-nos que o futuro tem de contar com os interesses e as preocupações dos países deixados de fora do velho Ocidente desenvolvido. O Sul Global também nos quer recordar que é preciso reconstruir o sistema multilateral, integrar as economias emergentes num quadro equilibrado de comércio mundial e resolver as questões do desenvolvimento, do endividamento excessivo dos Estados, da saúde e do clima.O presidente norte-americano estará em Davos. Está previsto que tenha uma reunião com o presidente Zelensky e os líderes europeus que estão dispostos a apoiar a implementação do plano de paz para a Ucrânia. É importante que isso aconteça, embora eu esteja convencido de que ainda estamos muito longe de ver Vladimir Putin aceitar o plano na sua versão atual. Nos últimos tempos, Putin tem intensificado a sua agressão e os crimes de guerra contra a Ucrânia, dando assim a entender que aposta acima de tudo na guerra e na violência da força. Para ele, a ordem internacional que tem sido lei há décadas morreu de facto.Os europeus têm de se preparar para enfrentar as consequências do novo paradigma e, em particular, a ameaça que vem agora do Kremlin e de outras origens. Assim, além da discussão da contribuição da Europa na execução de um possível, mas ainda distante plano de paz, é indispensável acelerar a cooperação entre os Estados europeus e investir de modo coordenado na autonomia de Defesa do nosso espaço geopolítico. Ao fazê-lo estamos a mostrar que compreendemos que o mundo mudou e é, para já, um lugar perigoso para viver.Simultaneamente, a Europa deve desempenhar, em aliança com as democracias do Sul Global, um papel mais ativo na reforma do sistema multilateral, em especial das Nações Unidas. Esta é uma tarefa que permitirá encarar o futuro com um otimismo renovado e criar pontes com outras regiões do globo. Aqui a mensagem é clara: a Europa acredita na importância da lei internacional e está pronta para contribuir para um reequilíbrio mais justo nas relações entre os Estados.A assinatura do Acordo de Comércio UE-Mercosul, que terá lugar amanhã na capital do Paraguai, mostra qual é o caminho que deve ser seguido. A presença de Úrsula von der Leyen e de António Costa em Assunção para assinar um acordo que precisou de décadas até chegar a bom porto contradiz, em grande medida, a tese de que a ordem internacional morreu. Espero que Davos também revele que, neste tempo de incertezas, ainda há espaço para a imaginação e a vontade para tratar o futuro com otimismo. Conselheiro em Segurança Internacional.Ex-secretário-geral-adjunto da ONU