A coordenação global

O problema da Decadência do Ocidente, talvez com o primeiro diagnóstico no livro de Spengler, com esse título, mas que foi particularmente aprofundado pela intervenção de Arnold Toynbee, que celebrizou, com frieza imprevista, a conclusão do que, em face do resto do mundo, teve o Ocidente a crítica da agressão que, politicamente, levou à sublevação, marcada pela decisão de expulsar a raça branca, detentora de vasto poder em todas regiões que decidira submeter, pelo método imperialista, impondo a submissão do interesse económico do colonizador.

A liquidação da população aborígene do que são hoje os EUA levou os europeus conquistadores a multiplicar a população escrava sobretudo de africanos. A liderança do combate aos interesses europeus marcou o pensamento e a ação política de homens como Nehru, Nkrumah, Nasser, Mossadegh, apoiados por muitos outros. Como observou Jorge Dias, "a unidade da raça e da cultura pode dar tranquilidade aos homens, porque suprimem muitos conflitos, que resultam do choque de padrões culturais e de tipos de personalidades distintas, sendo todavia sublinhado por vários estudiosos que uma grande cultura é de regra o resultado da combinação de elementos étnicos e culturais diferentes.

A brutalidade dos conflitos mundiais, em que se distinguiram as duas Guerras Mundiais, a última de 1939-1945, teve finalmente um projeto de fazer vigorar as regras de "a Terra casa comum dos homens", e a aceitação do global "credo dos valores", visões de uma paz assente na "cooperação mundial", além da criação da ONU, hoje anunciada como caminhando para o "pântano". A cooperação global teve na criação da UNESCO uma visão de que "as guerras começam no coração dos homens" (wars begin in the minds of men), e que "é no coração dos homens que as salvaguardas da paz devem ser constituídas" (it is in the minds of men that the defences of peace must be constructed). É nesta organização que os valores são mais salvaguardados, sendo de referir a evolução humana do depois presidente Abdul Nasser, com o seu texto sobre a Filosofia da Revolução. Ali explica que "a Segunda Guerra Mundial e o curto período que a precedeu marcaram o espírito de novos agentes e empurraram uma geração para o caminho da violência". Ali não omite assumir que participara porém na seguinte: "Tínhamos um plano de ação e decidido que certo homem devia deixar de existir. Estudámos os seus movimentos e hábitos antes de irmos para diante com o plano, que era perfeito em todos os detalhes. O plano consistia em abatê-lo a tiro à noite quando regressasse a casa... A noite escolhida chegou e fui com o grupo de ataque... logo que apareceu foi alvo de uma saraivada de tiros... Cheguei a casa e deitei-me, o espírito agitado, o coração e a consciência num tumulto incessante... Esperei ansiosamente pelo jornal da manhã. O homem cujo assassínio eu tinha planeado estava livre de perigo. Eu estava salvo." (The Philosophy of the Revolution, Washington, 1955).

Realmente, como proclamaria a UNESCO, "as guerras começam no coração dos homens". A celebração do ataque às Torres Gémeas, em 11 de setembro de 2001, levou o presidente dos EUA, Bush, a resumir angustiado a dimensão do desastre, exclamando: "É tarde para os homens e cedo para Deus." As brutalidades que neste século sem bússola, se verificam, designadamente na França, em Angola, em Moçambique, levaram o secretário-geral da ONU a proclamar que "a reforma da governação global deveria ser um passo em frente na criação de um mundo mais justo que possa resolver os problemas partilhados antes de estes nos esmagarem". De facto esta definição do que também chama a ameaça do "pântano" que ameaça a intervenção com êxito da ONU, sobretudo torna tal risco exigente na coordenação, dedicação e respeito global pelos valores que inspiraram a criação da UNESCO. São as palavras encantatórias, que relembram as dos fundadores da ONU. Não são apenas de salvaguarda do projeto da ONU, onde países como Portugal não omitem servir os valores daquela instituição sem equivalente na história internacional. Trata-se de não faltar o "poder do verbo", que enfrenta o "verbo do poder". Uma UNESCO que seja a pregadora ouvida para que a "comunidade da terra" tenha como "credo dos valores" a cooperação do povo, do ambiente, do planeta também em risco, a cooperação global, em igualdade e paz.

O secretário-geral da ONU repetiu na última reunião da Assembleia da ONU que necessitamos, mais do que nunca, de estruturas de governação globais que desempenhem um papel na gestão de bens públicos globais cruciais, incluindo a saúde pública, a ação climática, o desenvolvimento sustentável e a paz. Está divulgado em todo o mundo e o seu conteúdo fortalecido na Assembleia pela voz do nosso Presidente da República.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG