A conversar é que a gente se entende

A comunicação tem muito que se lhe diga. E na linha do ditado que dá nome a este artigo, são as duas Coreias que, após mais de um ano, voltaram a abrir canais de diálogo.

Parece longínquo o ano de 2018, altura em que o líder norte-coreano andava em modelo "show off" com o ex-presidente Americano. O facto é que desde então o mundo mudou. A diplomacia americana mudou de rumo e a pandemia não escolheu lugares seguros. Mesmo sem confirmação oficial de casos de COVID-19 na Coreia do Norte, Pyongyang fechou fronteiras e considerou a pandemia como um assunto de sobrevivência nacional.

Trata-se de uma questão de relevância humanitária e não só. A Coreia do Norte está a lidar com a maior crise desde a década de 90, na qual morreram à fome cerca de 3 milhões de pessoas. Ainda assim, mesmo com a pandemia e os tufões que lhe assolaram o território, há sempre o famigerado programa nuclear. E esse dá que pensar.

A informação verdadeira e abrangente sobre a Coreia do Norte é escassa. Não há relatos de mortes por fome (embora não haja forma de o comprovar) e, se assim for, talvez muito se deva à China pelo seu papel preponderante no auxílio a este país.

É inegável que o relançar das conversações com Seul ajudam a perspetivar um futuro melhor. Sob a ótica de quem lá vive, será um abrir de esperança, ainda que vã, para os Coreanos separados há mais de setenta anos. Para o resto do mundo significa uma menor probabilidade de assistir a um advento que ninguém deseja testemunhar: um novo ataque nuclear.

No panorama internacional, há quem anteveja que uma cimeira - mesmo que virtual - possa ser o primeiro passo para alcançar a pacificação da região. A diplomacia percorrida ao longo de quase dois anos levou à troca de mais de uma dezena de missivas entre as duas coreias, permitindo a abertura deste canal entre os dois países.

Saindo da esfera hermética das duas coreias, entende-se que o contexto atual pode ser benéfico ao grande aliado do sul. Sem adiantar muito, Washington lá vai dizendo que, depois da explosão do "gabinete de ligação" do lado norte coreano, o resultado traduziu-se em novos embargos impostos pela comunidade internacional.

Mesmo que o cumprimento das sanções fique sempre aquém do planeado, qualquer regresso das conversações entre os EUA e a Coreia do Norte estará sempre dependente da nomeação de observadores externos. Nesse sentido, a posição americana é muito clara: paz e proximidade na península sim, mas mantendo a desmilitarização (nuclear) do paralelo 38 como condição sine qua non.

Deseja-se que o tão anunciado - e saudado - regresso ao multilateralismo por parte dos EUA ganhe força e vigor no que às duas coreias concerne. Acrescento: as partes entendem-se a conversar quando o diálogo é coerente e respeitoso, não quando apenas se fala e não se ouve. Adiar decisões até ao limite também não funcionará. Esse modelo trará custos enormes para as economias, a interdependência falhará, e daí virá um parco exemplo de sinalagma entre o velho e o novo continente.

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