A América Latina é o principal parceiro comercial da UE. É também a região do mundo com quem mais partilhamos valores e cultura e com quem temos laços históricos inquebráveis, de boa ou má memória..Todavia, durante 8 anos não houve qualquer cimeira entre as duas regiões e, nos primeiros dois anos desta legislatura, a América Latina esteve ausente dos discursos sobre o Estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen. A falta de uma qualquer referência foi tão notória, que vários deputados socialistas, entre os quais me incluo, lhe escreveram a lembrar a importância dessa região para a UE..Entretanto, vários acontecimentos convergiram para mostrar como precisávamos uns dos outros. O primeiro foi a guerra na Ucrânia, incluindo as resoluções votadas na ONU sobre este tema; no ano passado o Brasil mudou de presidente e de política externa; ocorreram duas presidências do Conselho da UE com sensibilidade e conhecimento profundo desta zona do mundo, a portuguesa primeiro e agora a espanhola; organizámos várias iniciativas no Parlamento Europeu sobre a América Latina, com a participação de líderes da região; sem esquecer, é claro, o papel do Alto Representante Josep Borrell. Tudo isto contribuiu para que a Cimeira, que teve lugar no mês passado em Bruxelas, tenha sido um sucesso, reconhecido por ambos os lados..Não foi fácil chegar à Declaração final e foi preciso entender que a guerra vista do outro lado é diferente da que vemos de mais perto..Também não ficou claro quando e como vamos assinar o Tratado do Mercosul, que se arrasta há vários anos. Dos dois lados reconhecemos que há questões ambientais importantes que devem ser tidas em conta nesse acordo, mas o ritmo e modo de as gerir não é igual. São ainda muito diferentes os meios financeiros que permitem suportar os custos da transição e dos dois lados há agendas protecionistas resistentes que, no final, vão dificultar a entrada em vigor deste acordo..Apesar disso, a Declaração da Cimeira foi assinada por 60 países europeus e americanos (todos os presentes, exceto a Nicarágua), ou seja, por um terço de todos os países que fazem parte das Nações Unidas, o que terá justificado a afirmação de Ursula Von der Leyen "a UE está de volta à América Latina". Desejo que sim e vice-versa, com uma parceria durável e proveitosa para ambos os lados. Espero que a UE esteja de volta com uma política comercial que combata o extrativismo já não do ouro ou da prata, mas do lítio por exemplo; de volta com uma forte aliança digital inclusiva, atenta à conectividade, mas também aos direitos e à literacia digital; de volta com mais transferência de tecnologia, para que as transações comerciais se façam com valor acrescentado local; de volta, para gerir em conjunto a transição climática com mecanismos de financiamento adequados; e, sobretudo, de volta para ajudar no combate às desigualdades que envenenam a vida social e política em tantos países latino americanos..Como disse o presidente Lula no final da Cimeira, "Eu saio daqui feliz, volto para o Brasil feliz porque acho que conseguimos o intento muito grande que foi restabelecer de forma madura as negociações com a União Europeia"..Eurodeputada