5 de abril de 1994, o dia em que chorámos no liceu!

Estávamos no pátio do liceu, quando vejo a Joana a soluçar. O Pato, sentado de cócoras no patim da porta, agarrado à sua loura e farta poupa, escondia a cara em desespero. A azáfama era tal, que todos corriam desgovernados com as suas camisas de flanela amarradas à cintura.

Mas o que se passou? Ninguém queria acreditar: Kurt Cobain estava morto. E, com ele, os Nirvana. Os ídolos de uma geração. Da minha geração!

Todos soubemos no exato dia da sua morte! Como? Ninguém sabe. Mas soubemos.

Eu tinha eu 15 anos e estava a descobrir a música. Mais propriamente o grunge. No meu walkman, as bandas de Seattle rodavam até que as fitas das cassetes ficassem cansadas. Em pleno boom da MTV lá ia eu e mais uns quantos, a pé para casa do Ricardo. Íamos ver uns videoclips (isto ainda se diz?) e os melhores eram gravados numa VHS. Cassetes e cassetes de vídeos. Horas e horas de música que anda, ainda hoje, espalhada nos sótãos dos nossos pais.

Lembro-me do dia em que vi o Smells like Teen Spirit pela primeira vez. Aquele amarelo, aquela névoa, a imagem arrastada, a distorção da guitarra, tudo me fez ficar colado ao sofá. Aquela simbiose perfeita entre som e imagem transportou-me para o meio dos espíritos que emanavam do vídeo. E foi em casa do Ricardo que o vi pela primeira vez! Na parabólica. Que luxo! Tanta música disponível... não podíamos era escolher, como agora no Spotify ou no YouTube. Aquilo tocava e o que tocasse era o que víamos. Deixámos de ouvir os Nirvana nos VHS em random e passámos a escolher as faixas que mais gostamos no Spotify, cada vez mais personalizado. E... no dia 5 de abril de 2021, 27 anos depois da morte deste ídolo de gerações, é lançada uma música de Nirvana... gerada artificialmente! Leram bem. Artificialmente!

Assustador ou não, poder ouvir Drowned in the Sun é no mínimo motivo para especularmos sobre o futuro da indústria musical. Não?

Ao que parece basta pôr o algoritmo a correr e deixá-lo ler acordes, harmonias, riffs, solos, ritmos de bateria, letra e voz. Fácil! Talvez.... Verdadeiro? Não me parece! É como o nome indica, é gerado artificialmente.

E o que não é artificial é a má memória que guardo daquele 5 de abril. A memória boa daquele videoclip. A memória de uma geração que tento, a custo, fazer perdurar quando toco Nirvana com o meu filho.

É bom fechar os olhos e voltar os anos 1990. E voltar àquele ginásio com a tabela de basquete no centro da parede.

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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