Stanley Kubrick, realizador de 2001 Odisseia no espaço, actualmente não poderia recriar o diálogo tenso entre o astronauta norte-americano e russo que, numa postura de oposição, se encontram numa estação interespacial. Teria, talvez, de filmar um cumprimento amigável entre os dois, para refletir a estranha convivência que liga agora Trump e Putin, na mais improvável amizade que marca a nova ordem mundial. Enquanto para o espaço as orientações de Trump, numa imitação tosca de Kennedy são para voltar a colocar astronautas norte-americanos na Lua até 2028 e polvilhar o espaço com reactores nucleares, na terra cresce o desalento social e acentua-se a pobreza mundial com violência e guerras um pouco por todo o planeta.Mas deixemos o espaço sideral e entremos, então, em 2026 com os pés na terra e, sobretudo, na terra que temos mais debaixo dos nossos pés em Portugal.O que nos vai acontecer em 2026? Não é preciso ter uma bola de cristal para constatarmos que vamos ter um novo Presidente. Quem será o novo ocupante de Belém só as eleições o dirão, mas se os caros leitores não levam a mal o atrevimento de um prognóstico, talvez a segunda volta possa contar com um populista e um almirante. Esperemos, porque prognósticos só no final do jogo.Entretanto no novo ano de 2026 regressam os velhos problemas.Veremos a habilidade do Executivo para desatar alguns velhos nós górdios, mas confesso que estou pouco confiante.E quando se fala de nó, a saúde é o que de imediato nos vem à cabeça. Será em 2026 que o governo vai dar autonomia aos hospitais e introduzir a gestão por objectivos? E em 2026 irá, finalmente, nascer uma carreira médica pública, estável, bem paga e bem equipada a dar corpo ao nosso querido SNS? É que até Agosto de 2025 foram gastos 164 milhões de euros em horas extraordinárias pagas a médicos tarefeiros!Ainda sobre saúde dizem por aí que há muitas camas sociais nos hospitais. Parece que sim e faltam camas para doentes. Então porque é o Executivo reduziu os valores do PRR que contemplavam a abertura de 5500 camas de cuidados continuados? Em 2025 foram anunciados pelo Governo 90 contratos para 3500 camas. Lá se foram 800 camas de cuidados continuados que tanta falta fazem a uma população envelhecida.E 2026 será, finalmente, um ano de maior transparência? O que é que a Entidade da Transparência (?) está à espera para fiscalizar todos os cidadãos que sejam detentores de empresas e assumam responsabilidades políticas? Porque não o fez até agora? Porque não seguir o exemplo finlandês onde todos os cidadãos podem consultar os rendimentos de um outro qualquer cidadão. Isto sim, seria transparência. E teria evitado algumas dores de cabeça a alguns dos nossos candidatos presidenciais!E lembrar os problemas do próximo ano é também falar de habitação. Vão renascer as cooperativas de habitação em 2026? O governo vai fazer alguma coisa para que os bancos abram os “cordões à bolsa” e destinem uma parte dos seus imensos lucros para empréstimos a cooperativas de habitação? Ou os bancos vão continuar a enviar as suas disponibilidades financeiras para Bruxelas na ganância de altas taxas de juro? E a propósito de habitação aqui fica uma má notícia. O IMI vai subir 7%. E será, em 2026 que, finalmente, haverá em Portugal espaço para algo mais do que o turismo? O governo vai conseguir diversificar? Novas indústrias são bem vindas. É que o turismo já representa 12 % do nosso PIB, qualquer coisa como 34 mil milhões de euros, segundo fontes do INE. Se um dia há uma catástrofe internacional que interrompa o fluxo turístico, lá ficamos “ de calças na mão” como diz o povo.E a modernização administrativa, esse enorme flop ministerial? Vamos ver alguma coisa de palpável em 2026? Há uns dinheiritos no Orçamento de Estado para o efeito. Em concreto 140 milhões de euros. Mas constatamos que o dinheiro vai ser gasto em questões de secretaria. Avaliação de funcionários públicos, redução de entidades públicas, revisão de carreiras, realocalização de serviços públicos. Mas que raio de modernização administrativa. O ministro não consegue fazer melhor?Bom e depois temos as obras públicas, não é? Caros leitores, em 2026 as novidades não são de monta. Nos comboios, lá iremos ter a electrificação da linha do Algarve. Fraca compensação para a destruição que ao longo das décadas foi feita do nosso sistema ferroviário.No TGV, pode ser, sublinho, pode ser, que comece a ver-se alguma coisa nas obras do troço Porto-Oiã. Em Lisboa as cheias de Inverno podem estar a chegar ao fim com a conclusão dos túneis de drenagem Monsanto/Santa Apolónia e Chelas/Beato. Mas aqui ainda vamos ter de esperar por 2027. Por mim, se pudesse, ia até à Estação Espacial Internacional. A ausência de gravidade talvez ajudasse na resolução de alguns dos problemas que nos esperam em 2026. Um Bom Ano de 2026 para todos. Jornalista