2026: a pujança asiática

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Passei recentemente duas semanas no sul da Índia. Aterrei em Chennai, capital de Tamil Nadu - a antiga Madras, onde a Companhia das Índias Orientais inglesa construiu um forte e um entreposto comercial em 1639 - por volta das 3.00 da manhã. A cidade estava desperta, com um trânsito comparável ao de Lisboa às 3.00 da tarde. No regresso a Portugal, a sensação foi inversa: num dia útil, tudo parecia avançar em câmara lenta.

Ao longo do percurso até Cochim, na costa do Índico, repetiu-se a mesma impressão. É certo que o urbanismo é desordenado e que muitas infraestruturas continuam básicas. Mas há grandes obras em curso e perceciona-se uma energia permanente difícil de ignorar: ruas cheias, comércio intenso, gente que se move com propósito. Nas estradas, convivem desordenadamente crianças a caminho da escola, motas, carros, bicicletas e... vacas - e tudo flui com uma lógica própria. Em centenas de quilómetros de trânsito intenso, não vi um único acidente. A venda limitada de álcool e a impossibilidade prática de grandes velocidades ajudam a explicar o fenómeno.

Espreitei algumas escolas. A disciplina era evidente e nas conversas, percebia-se o peso que a Educação tem na mobilidade social e no futuro das famílias. A digitalização acelerada e a integração tecnológica no Ensino reforçam essa aposta, comum a grande parte da Ásia, onde vastas populações estudantis alimentam expectativas sociais e criam um potencial de crescimento difícil de igualar.

A Índia cresce cerca de 6,4% ao ano, e perspetiva a sua entrada no clube das grandes potências económicas, mas não é caso isolado. Mesmo deixando de lado a China, o continente apresenta ritmos de crescimento acima da média global. A Ásia já representa 46% do PIB mundial em paridade de poder de compra e continua a expandir-se o seu peso económico. Concentra a maior força de trabalho do planeta, promove uma industrialização acelerada, impulsiona a produção e o consumo interno (que a fará depender menos das exportações) e mantém, em geral, uma inflação moderada e contas externas equilibradas ou excedentárias -, fatores que reforçam a resiliência macroeconómica regional.

Ao mesmo tempo, a região está a abandonar o modelo de mão de obra barata e a avançar para um ecossistema económico centrado em inovação científica, com impacto direto na biotecnologia, na saúde, na indústria farmacêutica e nas tecnologias avançadas. A próxima década será marcada por esta transição.

Talvez 2026 ainda não seja “o ano asiático”. Mas não falta muito para que o esforço do continente seja visível no cenário global - e não apenas através dos gigantes que são a China e a Índia.

Durante a viagem, lembrei-me da frase desprezível que se ostentava em Portugal: “Não somos o Bangladesh.” Ao ritmo atual de quase-estagnação europeia, é provável que dentro de alguns anos se ouça, como resposta, em vários países asiáticos: “Isto aqui não é a Europa.” Para eles, será um sinal de vindicta da sua antiga superioridade civilizacional. Para nós, um aviso sobre a necessidade de compreender e nos relacionarmos de outro modo com um continente plural, dinâmico e em plena ascensão.

Ex-deputada ao Parlamento Europeu

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