19 de Janeiro de 2026

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Recordo várias manhãs de Janeiro, todas de segunda-feira, com intervalos de uma década.

Nalgumas tive a alegria própria de quem vê as suas convicções serem maioritárias no país, noutras assim não aconteceu.

A 19 de Janeiro de 2026 seremos confrontados com bastante mais do que a reacção natural de quem vê as suas ideias serem maioritárias ou minoritárias.

Pela primeira vez somos confrontados com a possibilidade de ver quem se afirma contra o regime político em que vivemos e contra a Constituição da República colher o suficiente apoio dos portugueses para poder disputar a Presidência da República.

Os mais inocentes, ou os mais distraídos, dirão que tal facto é irrelevante, já que tal candidato nunca sairá vencedor.

Acontece que basta a presença desse candidato na disputa final para que ocorra uma mudança qualitativa muito relevante e inédita. Nesta circunstância já não estaremos a votar a favor seja de quem for, estaremos a votar contra, numa votação instintiva de autodefesa.

Eu votei por Mário Soares, por Jorge Sampaio ou por Manuel Alegre porque os entendia como os melhores para a função, não por ser contra os seus opositores.

Se esta barreira for quebrada, os que perderem já ganharam.

É, também por isto, que importa assegurar que na madrugada de 19 de Janeiro possamos, os democratas e os defensores do regime saído do 25 de Abril, continuar a optar por aquele(s) que queremos como Presidente da República e não a votar contra o que não queremos.

Contrariamente ao que muitos vêm dizendo, nesta sociedade desigual e extremada que tem vindo a ser construída, é cada vez menos irrelevante saber se “o nosso coração bate à esquerda ou à direita”. Não, não estou a referir-me a declarações tonitruantes, inflamadas, ou a vazios entusiasmos tribunícios de oportunidade.

A opção é se queremos um estado mais forte para proteger os fracos, ou o contrário; se queremos mais igualdade de oportunidades para todos ou se aceitamos o determinismo do nascimento; se entendemos o território como um todo coeso, ou se optamos por um litoral desenvolvido e um interior desertificado, invadido por painéis solares e javalis e pasto fácil para os incêndios; se queremos uma economia baseada na produção e ao serviço das pessoas, ou se optamos pelo modelo de financeirização que vem dominando o mundo.

Por tudo isto, e o mais que aqui não cabe, não gostaria de ver alguns dirigentes políticos, quais inconsequentes carpideiras, a não assumir, no dia 19 de Janeiro, as suas responsabilidades históricas.

Ainda todos temos tempo e espaço para ser a favor. Os que optarem por ser contra não se poderão queixar de ninguém que não de si próprios.

Eu quero escolher e quero que o meu país continue a legitimar os seus responsáveis pelo que eles querem e não pelo que eles não querem.

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