Neste tempo diferente (e não para melhor), tudo recomenda que se repensem o enquadramento, as políticas e os instrumentos da Defesa Nacional.A circunstância de estarmos a entrar num novo ciclo, com um novo Presidente da República e com um horizonte de aparente estabilidade governativa à nossa frente, favorece essa ação.Mas há um ponto prévio que precisa de ser abordado. Esse ponto corresponde à necessidade de desmontar alguns mitos que, de modo muito generalizado, pairam sobre o pensamento nacional, assim o condicionando e ludibriando.Um deles, respeita à ideia que há uma oposição entre Europa e Atlântico, ignorando que o Atlântico é um muito importante elemento identitário da Europa, em particular da Europa Ocidental.Outro, tem que ver com a ideia de que Portugal é uma potência marítima, sobretudo se com isso se pretende criar um contexto tendente a desviar-nos da nossa intrínseca pertença à Europa e das dinâmicas que na UE estão a emergir no sentido de promover a sua maior autossuficiência em matéria de Segurança e Defesa.Um terceiro, liga-se à visão pseudograndiosa de Portugal como charneira entre a América do Norte e a Europa. Como se Portugal tivesse escala política e territorial para essa função... Claro que não tem! Se essa charneira existe, e mesmo pondo de lado a turbulência que hoje emana dos EUA, então é todo o rim europeu, que Portugal integra, que a cumpre.Há também o mito do país arquipelágico. O que não passa de uma falaciosa construção. O Continente português é o núcleo geohistórico e geoeconómico de Portugal, definidor essencial da nossa natureza europeia e essa expressão continental é prolongada pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores. É prosaico, mas é a realidade.Outra falácia é a do triângulo estratégico, cujos supostos vértices seriam o Continente, a Madeira e os Açores. Deve, desde logo, duvidar-se da substância destas abstratas visões geométricas. Além disso, e raciocinando em termos de funcionalidade estratégica, a verdade é que não há nenhuma complementaridade funcional entre as três parcelas. Logo, não há triângulo.Finalmente o sebastianismo. Não é um mito que se projete diretamente na nossa cultura de Segurança e Defesa. Mas, como é algo que tão recorrentemente tolda as nossas perceções, vale a pena meditar nele e estar atento. Como escreveu Eduardo Lourenço, ainda que se ligue à aspiração de um futuro melhor, o sebastianismo reflete uma cultura de ausência. É uma forma de sonho, não assente num esforço sério e reiterado que construa progresso. Os sebastianistas são de recear, mas os míticos “Dons Sebastiões” são absolutamente de recusar.Também na Segurança e Defesa este critério deve prevalecer.