Vida e morte de Marilyn Monroe

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No ano do centenário de Marilyn Monroe, nascida a 1 de junho de 1926, sentimos a necessidade, porventura a urgência, de revisitar as suas imagens, dir-se-ia para cumprir uma missão sem fim à vista. Isto porque a retórica que a envolve – da atriz consagrada e destruída por Hollywood, até à mulher amada pelo mundo, mas sempre solitária –, mesmo transportando inequívocas verdades, parece sempre envolver algum tipo de traição a uma verdade mais íntima que assombra o próprio desejo de “contar a história” de Marilyn. Entre os textos que li ao longo destes meses, o breve, mas admirável, ensaio de Bernardo Pinto de Almeida – Marilyn, Ninfa e Dasein (ed. Documenta) - distingue-se pelo misto de subtileza e elegância com que enfrenta esse desafio de lidar com (escrever sobre) uma solidão em que, de alguma maneira, também participamos.

A escrita de Bernardo Pinto de Almeida decorre da recuperação de uma palavra (certamente também um conceito) que, apesar de tudo, não esquecemos: beleza. Não será esse o seu tema direto, mas faz sentido voltar a dizer que a relação com o belo vai sendo todos os dias abastardada por um imaginário televisivo que, da rotina narrativa das novelas à consagração obscena do mundo dos “famosos”, tende a tratar a beleza como um “gadget” promocional e publicitário, um instrumento de marketing e, por fim, uma mercadoria definidora de “carreiras”.

Aquilo que encontramos nesta viagem com Marilyn – entenda-se: através de toda uma herança iconográfica e simbólica – é a sua reinserção numa corrente de sensibilidades e pensamentos condensada nos elementos que o título refere. Simplificando, diremos que Marilyn nos surge como encarnação moderna de um ideal de beleza (“Ninfa”), mulher concreta e abstração sagrada que espelha a herança da filosofia de Martin Heidegger, problematizando o Ser (“Dasein”) como Ser para a morte.

Por uma vez, este é um livro cujas imagens não são meras “ilustrações” da filmografia da atriz, ainda que evocando alguns dos seus títulos emblemáticos.

'A Ninfa Surpreendida' (c. 1860), de Édouard Manet; Marilyn fotografada por Nick de Morgoli (ensaio para o filme 'Como se Conquista Um Milionário', 1953).
'A Ninfa Surpreendida' (c. 1860), de Édouard Manet; Marilyn fotografada por Nick de Morgoli (ensaio para o filme 'Como se Conquista Um Milionário', 1953). FOTO: DR

Assim, os fotogramas dos filmes, a par de algumas das suas fotografias promocionais, surgem lado a lado com frescos de Pompeia ou pinturas como O Nascimento de Vénus (Sandro Botticelli, c. 1486) e A Ninfa Surpreendida (Édouard Manet, c. 1860). Não se trata, entenda-se, de uma simples rima das respetivas poses, mesmo quando tal rima tem qualquer coisa de siderante. Trata-se, isso sim, da amostragem de um fio condutor em que Bernardo Pinto de Almeida deteta um conceito de beleza, hoje em dia recalcado por todas as ideologias consumistas, como acontecimento “inapropriável”.

Escreve o autor: “O que pretendo, então, afirmar é que aquilo que Marilyn operou foi, de facto, a atualização (...) da figura mitológica da Ninfa, deslocando-a do regime das anteriores imagens, nascidas na, ou da, pintura e da escultura, onde tinha sido previamente representada desde a Antiguidade, para o domínio, por excelência, moderno, das formas imaginárias trazidas pelo cinema.”

Tudo isto implica o contacto com uma verdadeira doação de Marilyn, ao passar a existir como imagem (“como pura imagem”) que, num movimento genuinamente trágico, tem tanto de apoteose do espetáculo como de ocultação da tragédia. Na certeza de que, ao contrário do medíocre imaginário promocional de algum cinema contemporâneo puramente mercantil, espetáculo e tragédia são duas faces da mesma moeda. No seu ziguezague entre ser e não ser Ninfa, que é também um movimento pendular entre a matéria da vida e o silêncio da morte, Marilyn ajuda-nos a resistir ao esvaziamento das imagens – escapando, como escreve Bernardo Pinto de Almeida, à “banalização do visível”.

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