O Prémio Maria Ondina Braga, de Literatura de Viagens, da Associação Portuguesa de Escritores em cooperação com o Município de Braga, constitui o reconhecimento da importância da memória de uma escritora que deu à língua portuguesa um rico contributo centrado no diálogo entre culturas baseado na ideia de viagem e do encontro com a diversidade e o contacto com os outros.Antes do mais, o multilinguismo e a procura de sentido das palavras em cada cultura foi para Maria Ondina (1922-2003) uma marca indelével que revela a importância universal da dignidade humana projetada no diálogo entre línguas e culturas. As suas obras são exemplos significativos dessa permanente interrogação em torno da vida das palavras, como em A China Fica ao Lado, Estátua de Sal, Amor e Morte, A Revolta das Palavras, Noturno e Macau e Vidas Vencidas. Longe de serem separadores, as fronteiras são, assim, exigências de encontro.Ao vencer a edição deste ano, Luís Filipe Castro Mendes associa o seu nome a um conjunto fundamental, onde se encontram António Mega Ferreira, Afonso Cruz, José Pedro Castanheira ou Dora Gago. Pode dizer-se que o autor de Países Estrangeiros – Memória e Viagens (Guerra e Paz) interpreta com grande fidelidade o espírito deste galardão.O livro traça o percurso fascinante de um diplomata, que sempre procurou fazer dos contactos que a vida lhe proporcionou uma descoberta do mundo e da Humanidade num momento crucial da Revolução de Abril, quando se desenhava o trajeto da democracia portuguesa, num tempo pleno de incertezas. Portugal é a primeira matéria-prima da obra. Depois, vem o mundo e o género humano na sua complexidade.Leitor voraz, o escritor nunca esquece a literatura. E Kavafis pergunta: “Que vai ser de nós sem os Bárbaros / Essa Gente era uma espécie de solução ?” As conjunturas sucedem-se. As independências, Angola 1975, o mundo abre-se. O caminho da Pérsia, o fim gradual da Guerra Fria, recordações históricas, a velha Guerra da Crimeia e a lembrança de que a Federação Russa entrava no ocaso.O percurso constrói-se entre o estrito profissionalismo e as “afinidades eletivas”. A Espanha está no coração. Paris é uma biblioteca inesgotável. No centro da Europa, a Queda do Muro de Berlim traz-nos a Cacânia de Robert Musil e o renascer do Centro e Leste do Velho Continente. A Hungria simboliza uma certa melancolia. Superada a fonteira europeia, eis que a Índia obriga a uma nova perspetiva, depois de ter sido, na nossa História, grande referência mítica. Agora deve ser revisitada à luz de mudanças profundas e inexoráveis. No fundo da memória, quem pode esquecer o dito: “Quem viu Goa, não precisa de ver Lisboa”? E o Brasil diz-nos que o Paraíso não está em nenhum lugar da terra, mas no espanto e na surpresa com que enfrentamos a novidade da aventura.Anos muito felizes no Conselho da Europa em Estrasburgo, “por todos aqueles anos que nos anunciavam a catástrofe iminente”. A realidade histórica reserva-nos mil surpresas, como quando alguém se lembrou de confrontar as memórias de Malraux com as atas das conversas que ele efetivamente tivera com Mao Tsé-Tung guardadas nos arquivos chineses. “Nada tinham que ver: discursos redondos e prudentes substituíam todos os rasgos épicos atribuídos a Mao, a língua estereotipada dos comunicados oficiais tomava o lugar do verbo inspirado que o escritor e ministro francês atribuíra ao se interlocutor.”Mais importante que a verdade dos factos era a voz do essencial. A viagem está em cada passo, em cada momento…