O Governo decidiu avançar com uma reforma do Estado que, apesar de anunciada com a serenidade de um gesto técnico, carrega dentro de si a densidade de décadas de adiamentos, hesitações e compromissos mal resolvidos. A intenção de reduzir o número de pareceres obrigatórios nos licenciamentos, permitindo que empresas e investidores deixem de percorrer um labirinto administrativo, que parece ter sido construído para testar a paciência de quem ainda acredita no potencial económico do país, é um passo que merece ser reconhecido. Não apenas porque responde a um problema antigo, mas porque assume que a simplificação deve anteceder a digitalização, evitando a ilusão confortável de que basta informatizar processos para que estes se tornem melhores. A ideia de arrumar a casa antes de a modernizar é sensata e revela uma compreensão rara do que significa reformar o Estado..Mas a ambição, por si só, não chega. As reformas estruturais exigem tempo, continuidade e uma força política que não se esgota na vontade de um momento. E é precisamente aqui que o Governo enfrenta o seu maior desafio. Governa em minoria, depende de entendimentos parlamentares frágeis e tem visto a sua margem de confiança diminuir nas sondagens, como mostram os mais recentes barómetros DN/Aximage. Esta erosão não impede reformas, mas torna-as mais difíceis, porque obriga a negociar cada passo, a explicar cada decisão e a resistir à tentação de ceder ao curto prazo. Reformar o Estado é um exercício que se mede em anos, não em ciclos de opinião.Há ainda um obstáculo que raramente é dito com a frontalidade necessária. Qualquer reforma séria mexe com interesses instalados, com zonas de conforto que se foram consolidando ao longo de décadas, com corporações profissionais que aprenderam a viver dentro de um sistema que lhes oferece proteção, influência e capacidade de bloqueio. A reforma do Estado não é apenas um processo administrativo. É um confronto político. E, como todos os confrontos políticos, exige coragem, persistência e a capacidade de construir alianças que não se desfazem ao primeiro sinal de resistência. Não basta anunciar simplificação. É preciso garantir que ela não fica presa em gavetas, pareceres ou silêncios cúmplices.."Há um mérito que importa sublinhar. A decisão de simplificar antes de digitalizar revela uma visão inteligente, uma vez que a digitalização não é uma solução milagrosa. A verdadeira reforma é de arquitetura e não de software.”.E é precisamente neste ponto que a oposição entra em cena, sobretudo aquela que já passou pelo Governo e que conhece bem a dificuldade de mexer em estruturas que resistem a qualquer tentativa de mudança. Espera-se que não complique o processo apenas porque está na oposição, que não transforme cada passo numa batalha tática e que não caia na tentação fácil de bloquear reformas que, no passado, também reconheceu como necessárias. A responsabilidade política não se mede apenas no exercício do poder. Mede-se também na capacidade de contribuir para mudanças que o país precisa, mesmo quando isso não rende dividendos imediatos.Ainda assim, há um mérito que importa sublinhar. A decisão de simplificar antes de digitalizar revela uma visão que raramente encontramos na Administração Pública. A digitalização não é uma solução milagrosa. Não resolve processos mal desenhados, não elimina redundâncias, não substitui decisões políticas. Apenas acelera o que já existe. E, se o que existe é um sistema lento, opaco e excessivamente burocrático, a tecnologia apenas tornará mais evidente aquilo que sempre esteve errado. A verdadeira reforma começa na arquitetura, não no software.============2024 - Credito (5893110)============ Gerardo Santos============2024 - OPINIÃO - Corpo Texto CAP_0030 (5892951)============"Há um mérito que importa sublinhar. A decisão de simplificar antes de digitalizar revela uma visão inteligente, uma vez que a digitalização não é uma solução milagrosa. A verdadeira reforma é de arquitetura e não de software.”