Variações queirosianas: o senhor Sousa Neto, hoje

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Se bem se recordam os leitores que eventualmente partilhem a minha “ecite” (termo que os brasileiros inventaram para nomear a paixão avassaladora por Eça de Queirós que entra forte em alguns), a personagem de Os Maias o senhor Sousa Neto é um cavalheiro que se dirige a Carlos da Maia para lhe perguntar “se havia, lá na Inglaterra, folhetinistas, poetas de pulso, como temos aqui em Portugal”, respondendo-lhe Carlos, com desfaçatez, que “não senhor, não havia lá disso”, para satisfação do senhor Sousa Neto, que era, aliás, o nosso diretor-geral da Educação l, como revelou depois o Ega.

Os novos senhores Sousa Netos não se preocupam minimamente com a existência ou com a carência, seja onde for, de “folhetinistas, poetas de pulso”, porque não os leem, de qualquer modo. Mas todo o desprezo da moda passou para a cultura humanística e toda a admiração restante para a cultura que se possa verter em números.

Os senhores Sousa Netos não aceitam qualquer análise económica que não seja conforme ao liberalismo manchesteriano do século XIX, tido agora como detentor das luzes da modernidade e do perfil do futuro, ao contrário de liberais maçadores como Keynes ou (pior ainda) de socialistas que acreditem ainda no socialismo.

A política internacional é vista pelos senhores Sousa Netos estritamente no seguimento dos princípios proclamados por aqueles que mandam em nós, mas estão prontos a mudar de princípios, assim mudem os que mandam, porque, como Groucho Marx, têm sempre outros disponíveis.

O bom senso e o bom gosto estão a ser crescentemente banidos da vida internacional, onde parece ter-se perdido um módico de racionalidade. A lógica da força domina a fraqueza das lógicas. Da subtileza de O Príncipe de Maquiavel passámos bruscamente para a brutalidade pura do Leviathan de Hobbes.

Il est très fort”, dizia o diplomata Steinbroken (outra personagem queirosiana) sobre o chanceler Bismarck, construtor no século XIX da grandeza do poder alemão. E logo, angustiado, prosseguia: “Mais où va-t-il? Où va-t-il?” O século XX, com duas Guerras Mundiais que destruíram a Europa, deu a resposta histórica às dúvidas de Steinbroken.

A força pura conduz à destruição pura. Mas renasceremos como Humanidade. E haverá um futuro para julgar e condenar o que andámos todos a fazer nestes últimos anos.

E os senhores Sousa Netos desse distante futuro serão, num mundo em reconstrução, os mais determinados e consequentes pacifistas ... enquanto não tiverem de mudar de princípios!1


CITAÇÃO DA SEMANA

“O caminho da História não é, de facto, o de uma bola de bilhar, que, após lançada, segue um curso previsível; assemelha-se, antes, ao caminho de uma nuvem, que segue também as leis da física, mas sofre ainda a influência de alguma coisa a que só poderemos chamar uma coincidência de factos.”

Robert Musil

“O alemão como

sintoma”, 1923

Diário de Notícias
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