Comecemos por um exercício simples. Imagine que alguém se aproxima de si, muito sério e convicto, e lhe diz: “Olhe, já pensou em deixar de ser heterossexual? Há programas muito eficazes. Podemos ajudá-lo a corrigir isso.”O absurdo é imediato. A reação, parece previsível: incredulidade, desconforto, indignação. Porque ninguém imagina que a sua orientação sexual seja algo a “corrigir”, “tratar” ou “converter”. Porque ninguém aceita que uma dimensão tão íntima e estruturante da sua identidade seja alvo de intervenção para se tornar mais aceitável aos olhos de terceiros. E, no entanto, é exatamente isto que as chamadas “terapias de conversão” fazem - mas dirigidas a pessoas lésbicas, gays, bissexuais ou trans.A ironia inicial serve apenas para expor o óbvio: aquilo que nos parece impensável quando aplicado a uns continua, inexplicavelmente, a ser tolerado quando aplicado a outros.As chamadas “terapias de conversão” partem do pressuposto, totalmente errado, de que ser LGBTQI+ é indicativo de uma disfunção psicológica, quando a evidência demonstra exatamente o contrário. Por isso, não são terapias. Não são práticas clínicas. Não têm base científica. E não têm lugar em sociedades que se pretendem éticas, informadas e respeitadoras da dignidade humana.A literatura científica é inequívoca: tentar “mudar” a orientação sexual ou a identidade de género de alguém não só é inútil, como é profundamente prejudicial. A pessoa não sai convertida, sai ferida. Sai com vergonha, ansiedade ou depressão.Enquanto psicóloga, não posso ignorar o impacto destas práticas. A função da psicologia não é moldar pessoas a expectativas externas. É ajudá-las a compreender-se, a aceitar-se, a viver com autenticidade e bem-estar. É promover saúde mental, não conformidade. É ampliar possibilidades e não estreitá-las.Quando falamos de “terapias de conversão” não estamos, portanto, perante um debate técnico. Estamos perante uma questão de Direitos Humanos. De ética profissional e de proteção de pessoas vulneráveis – muitas delas jovens, muitas delas pressionadas por contextos familiares, religiosos ou sociais que não toleram a diferença.A proibição destas práticas não é um capricho ideológico. É uma medida de saúde pública e uma salvaguarda da dignidade humana. É um compromisso com a ciência e com a ética. E é, acima de tudo, um lembrete de que ninguém deve ser forçado a caber numa caixa que não é a sua.Nem heterossexuais, nem homossexuais, nem ninguém.Porque a diversidade humana não é um erro a corrigir, mas sim uma realidade a aceitar e respeitar.