Vale a pena Portugal apostar no mar? A resposta é tão óbvia, que tem séculos

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Sempre que alguém diz que Portugal não é um país pequeno estará a referir-se a duas coisas: à História do país (e às muitas lições que nos dá para o futuro), ou à Zona Económica Exclusiva (ZEE). E, em ambas, a Marinha tem um papel fundamental, basta pensar que o próprio Dia da Marinha, o 20 de maio, assinala a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498, um momento transformador, que, somado à descoberta da América por Cristóvão Colombo, seis anos antes, globalizou o mundo. O grande historiador britânico Arnold Toynbee cunhou mesmo o termo “Era Gâmica”, para descrever o início de um novo período da história mundial. E se a época dos Descobrimentos ficou para trás, e o fim do Império nos devolveu à dimensão europeia, a verdade é que a tal ZEE resulta da fachada marítima original, somada aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, portugueses desde que os nossos navegadores lá chegaram no século XV, a ilhas então desabitadas. E faz de nós atlantistas.

Durante cinco dias, que terminaram no domingo, a minha cidade, Setúbal, foi o palco das celebrações deste ano do Dia da Marinha. É uma cidade de inquestionável vocação marítima, desde o famoso sal de Setúbal, exportado durante séculos, até à pesca, seja num Sado que ali, tão perto da foz, já é mais mar do que rio, seja pelo Atlântico dentro. E não esquecer os estaleiros navais, embora já tenham vivido tempos melhores, ou o porto de Setúbal, tão importante hoje para a AutoEuropa.

"Também o ministro da Defesa, recebido pela autarca Maria das Dores Meira, discursou em Setúbal, e referiu a ligação da cidade ao mar. Nuno Melo aproveitou para anunciar novos investimentos na Marinha e isso é importante."
"Também o ministro da Defesa, recebido pela autarca Maria das Dores Meira, discursou em Setúbal, e referiu a ligação da cidade ao mar. Nuno Melo aproveitou para anunciar novos investimentos na Marinha e isso é importante." FOTO: Marinha Portuguesa

Foram dias de festa para os setubalenses, como numa ida lá pude comprovar. Também gostei de saber que o almirante Nobre de Sousa, chefe do Estado-Maior da Armada, no discurso que fez na cidade relembrou que uma dos sadinos mais ilustres: Manuel Maria Barbosa du Bocage, serviu na Marinha. E se a folha de serviço pode não ter sido a melhor, digo eu, pois o lado boémio do poeta acomodava-se pouco à necessária disciplina, o ter conhecido mundo, América, África e Ásia, deu-lhe uma profundidade que vai muito além dos versos picarescos que, para o bem e para o mal, garantiram popularidade a Bocage.

Também o ministro da Defesa, recebido pela autarca Maria das Dores Meira, discursou em Setúbal, e referiu a ligação da cidade ao mar. Nuno Melo aproveitou para anunciar novos investimentos na Marinha e isso é importante. O tão falado Portugal oceânico, ou o tão referido triângulo estratégico que junta o Continente aos Açores e à Madeira, ou a tão elogiada economia azul, são conceitos que, para deixarem de ser vagos, precisam de meios. Esses meios, absolutamente necessários para garantir a soberania e para cumprimento das obrigações internacionais assumidas pelo país, têm de ser terrestres, têm de ser aéreos igualmente, mas sobretudo têm muito, muito, muito de ser da Marinha.

Não é difícil enunciar grandes navegadores portugueses, de Gil Eanes a Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e também Pedro Álvares Cabral. Ou ainda Fernão de Magalhães, mesmo que o maior feito deste tenha sido ao serviço da Coroa Espanhola. Mas como portugueses, apesar da importância dada por Toynbee a Gama, parece que estamos a autoelogiar-nos quando falamos dos Descobrimentos.

"Durante cinco dias, que terminaram no domingo, Setúbal foi o palco das celebrações deste ano do Dia da Marinha. É uma cidade de inquestionável vocação marítima.”

Um dia, porém, visitei Hamburgo, uma grande cidade portuária, de uma Alemanha que estava tão dividida na época das grandes navegações que nelas não teve participação de relevo. Portanto, neutra hoje na avaliação. E por isso não posso deixar de destacar o impacto que foi visitar um museu dedicado à história marítima da Humanidade e, logo à entrada, entre os bustos dos “sete maiores navegadores”, ver três portugueses: sim, três, e um islandês, um chinês, um italiano, e um inglês. Falo - e é uma escolha feita por alemães - de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães e ainda Leif Erikson, Zheng He, Cristóvão Colombo e James Cook.

Os tempos são outros, claro, e os desafios do século XXI bem diferentes. Mas vale a pena Portugal apostar no mar? A resposta é tão óbvia, que tem séculos.

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