Vai e não voltes

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O programa Volta foi apresentado como um passo para um futuro mais sustentável, tendo como ambição, até 2029, apresentar uma taxa de recolha de embalagens selectivas de bebidas de uso único de 90%. 

Segundo o seu próprio site, “é um pequeno passo que abre caminho a uma nova forma de gerir recursos onde o desperdício ganha valor e os materiais regressam ao ciclo, porque nada se perde, tudo volta”.

Encontra-se em funcionamento há cerca de três meses e, alegadamente, permitiria aos consumidores recuperarem o valor de depósito de 10 cêntimos que passaram a pagar a mais no acto da compra de latas de uso único, de plástico, metal e alumínio, e de garrafas inferiores a três litros.

Para tanto, de novo segundo o respectivo site, terão sido instalados cerca de 2500 pontos de recolha em supermercados e hipermercados em Portugal, cujos custos desconhecemos em absoluto.

Em síntese, a ideia, que poderia parecer boa na teoria, era que cada cidadão se deslocasse aos ditos pontos com as embalagens, as colocasse no equipamento e receberia os 10 cêntimos que já tinha pago por cada uma. Tudo, com vista a fomentar a reciclagem e um menor desperdício, sob o lema “lixa o lixo”.

O problema é que nem sempre as ideias luminosas acabam bem na prática. Desde logo, o sistema apenas permite a recolha das ditas embalagens em estado imaculado. De modo que, o menor dano, impede o dito reembolso, sendo que as pessoas só sabem se o mesmo vai acontecer já no dito ponto de recolha, o que é, obviamente, mais um elemento dissuasor. Sendo que a isto acresce que já existia um sistema de reciclagem, em que se podia – e devia – colocar tais embalagens em caixotes do lixo, à porta de casa, no caixote adequado para o efeito.

Agora, aparentemente, quem o faça fica em desvantagem, aparentando que este sistema se afigure mais como um castigo para quem já separava o lixo do que uma recompensa.

Sucede que, além do óbvio – ou seja, que é mais um custo para o consumidor, já tão castigado com a inflação e o custo de vida, e que nem sempre as garrafas ou as latas acabam imaculadas após o seu consumo –, um outro problema se começou a colocar nas nossas cidades, com Lisboa à cabeça.

Desde a introdução do sistema, a verdade é que várias Juntas de Freguesia se têm queixado dos impactos na higiene urbana deste programa. Embora ainda sem números concretos, a própria Câmara Municipal de Lisboa já assumiu que, “em alguns casos, contentores e papeleiras são remexidos ou mesmo despejados na via pública por pessoas que procuram embalagens abrangidas pelo sistema Volta, com o objectivo de obter o respectivo reembolso.

Dito de outra forma, à custa de se querer reciclar, o que se criou foi um sistema em que o consumidor é prejudicado financeiramente por cada produto destes que adquira, obrigando-se a um esforço suplementar de se deslocar aos respectivos pontos de recolha, sem ter a certeza do reembolso, quando tem o caixote adequado para o efeito no seu prédio ou à porta de casa.

Por seu turno, o que este o programa parece ter gerado é uma nova classe de pessoas que “catam” os caixotes de lixo e as papeleiras, visando obter o dinheiro com produtos que não adquiriram e que até podem estar no caixote adequado para o efeito. Tais pessoas, por seu turno, remexem o lixo, sem curar de o voltar a colocar no lugar, criando um novo problema, em diversas localidades, designadamente, Bairro Alto, Bica, Cais do Sodré e Chiado, entre outros, a que, inevitavelmente, outras se seguirão, se é que não se deparam já com estes eventos.

O problema não parece estar, assim, ao contrário do que diz a Câmara Municipal de Lisboa, em se estar “numa medida ainda numa fase inicial de implementação, em que é expectável existir um período de adaptação por parte da população e dos diversos intervenientes”.

Pelo contrário, o problema assenta em penalizar-se o consumidor, uma vez mais, quando já existia um sistema de reciclagem para estas embalagens e não se ter, sequer, acautelado as consequências que daí poderiam advir, designadamente com os cidadãos, não necessariamente limitados aos que nos habituámos a referir como “indigentes”, a procurarem fontes de rendimento, justamente à custa do dinheiro pago por terceiros e que, com tais buscas, provocam o caos na higiene urbana.

A reciclagem deve ser instituída através da educação da população e, não, através de castigos que, ademais, prejudicam os que já a faziam, obrigando-os a um esforço adicional que se pode revelar infrutífero.

Daí que, quanto a este programa, apesar do investimento já feito e sobre o qual não se conseguiu ainda apurar ainda os exactos números, parece caso para dizer “Vai e não voltes”.

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