Durante décadas, os europeus viveram com a convicção de que a sua segurança estava garantida. A paz no continente parecia consolidada e a proteção militar assentava, em grande medida, na NATO e no apoio dos Estados Unidos. Mas os acontecimentos dos últimos anos vieram abalar essas certezas.
A invasão da Ucrânia pela Rússia mostrou que a guerra voltou ao continente europeu. E a presidência de Trump e a sua hostilidade à UE pôs em causa a fiabilidade da aliança militar com os EUA. Ao mesmo tempo, as ameaças hoje incluem ataques informáticos, campanhas de desinformação, pressões sobre infraestruturas críticas e tentativas de interferência nas democracias europeias. Perante este cenário, ganha força a ideia de que a Europa tem de assumir uma maior responsabilidade pela sua própria defesa em todas suas dimensões.
É neste contexto que surge a proposta de uma verdadeira União Europeia da Defesa. Hoje existem na UE 27 sistemas nacionais de defesa, com frequentes duplicações de meios, diferentes padrões tecnológicos e elevados custos de coordenação. A proposta é reforçar a cooperação, desenvolver capacidades comuns e criar mecanismos de decisão mais eficazes para responder às ameaças crescentes que o continente enfrenta.
O objetivo não pode ser apenas gastar mais dinheiro em armamento. O desafio é construir uma capacidade europeia que permita proteger cidadãos, territórios e valores democráticos. A segurança deixou de ser apenas uma questão militar. Depende também da resiliência das economias, da proteção das redes digitais, da segurança energética, da capacidade tecnológica e da confiança dos cidadãos nas instituições.
A dimensão industrial e as compras conjuntas ocupam, por isso, um lugar central nesta estratégia. A UE pretende reforçar a produção própria de equipamentos, apoiar a inovação e investir em áreas decisivas para o futuro, como a inteligência artificial, a cibersegurança, as comunicações seguras e as tecnologias espaciais. A ambição é que este esforço contribua simultaneamente para a segurança, a competitividade económica e a criação de emprego qualificado.
Porém, os defensores desta estratégia insistem numa ideia fundamental: a defesa europeia não deve significar militarização da sociedade nem abandono dos valores que estiveram na origem do projeto europeu. A paz continua a ser o objetivo central, mas a sua preservação exige também capacidade de dissuasão e de defesa.
Como aconteceu tantas vezes ao longo da sua história, a Europa volta a encontrar numa crise uma oportunidade para avançar na sua integração. Jean Monnet, um dos pais fundadores da integração europeia, afirmava que “a Europa forjar-se-á nas crises e será a soma das soluções para elas adotadas”, frase tantas vezes repetida por J. Delors. A atual discussão sobre a defesa europeia parece confirmar esta ideia. Perante ameaças comuns, torna-se cada vez mais evidente que nenhum Estado-Membro conseguirá responder sozinho aos desafios da segurança contemporânea.