Uma questão de incentivos para fazer a paz

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A guerra no Irão continua sem fim à vista. E, pior do que isso, continua sem um propósito claro e sem que os dois lados se mostrem interessados em travar a espiral que eles próprios alimentam. O Médio Oriente habituou-se a viver em tensão permanente, mas o que se passa agora já não é tensão: é um jogo de roleta russa geopolítica, em que todos carregam a arma e fingem que não sabem quem vai puxar o gatilho.

O ataque israelita ao campo de gás natural de South Pars, realizado com apoio logístico e de inteligência dos Estados Unidos, foi mais um desses gestos que misturam cálculo tático com imprudência estratégica. Israel quis enviar uma mensagem, mas o Irão não se limitou a recebê-la: devolveu-a ampliada.

A retaliação sobre um campo de gás no Qatar, que provocou prejuízos avaliados em 20 mil milhões de dólares, foi a forma de Teerão lembrar ao mundo que não aceita ataques à sua infraestrutura energética sem retribuição. No xadrez do Golfo, cada peça capturada tem um preço, e o Irão fez questão de apresentar a fatura. A reação de Donald Trump, dizendo a Israel para não voltar a atacar a infraestrutura petrolífera iraniana, é reveladora. O presidente norte-americano percebeu que o conflito está a entrar numa zona onde os custos ultrapassam os ganhos.

"A reação de Donald Trump, dizendo a Israel para não voltar a atacar a infraestrutura petrolífera iraniana, é reveladora."
"A reação de Donald Trump, dizendo a Israel para não voltar a atacar a infraestrutura petrolífera iraniana, é reveladora."Aaron Schwartz / Pool

O que este ciclo de ataques e contra-ataques expõe é algo mais profundo do que a habitual disputa regional. Os alvos escolhidos - campos de gás, infraestruturas críticas e hubs de exportação - demonstram que esta não é apenas uma guerra de drones e mísseis. É uma guerra pela capacidade de controlar fluxos energéticos num mundo que ainda depende deles para funcionar. Quem controla o petróleo e o gás natural do Médio Oriente controla recursos que serão decisivos num hipotético conflito entre os Estados Unidos e a China que tenha lugar nas próximas décadas. A energia tornou‑se a nova gramática da geopolítica, e cada explosão no Golfo é uma frase escrita nesse idioma.

A dimensão económica do conflito é igualmente alarmante. Os 20 mil milhões de dólares de prejuízo no Qatar constituem apenas um vislumbre do que está em causa. Cada ataque a infraestruturas energéticas no Golfo repercute-se nos mercados globais, nos preços da energia, na inflação europeia e no custo de vida em Lisboa ou Berlim. E, no entanto, nenhum dos atores tem incentivos reais para parar neste momento.

"Nenhum dos principais atores tem incentivos reais para parar neste momento. Israel acredita que a pressão militar obrigará o Irão a ceder. O Irão tenta aguentar até os EUA se cansarem. E estes tentam obter uma vitória política, para além da militar.”

Israel acredita que a pressão militar e a decapitação sistemática da elite do regime iraniano o obrigará a render-se. O Irão acredita que a retaliação demonstra força tanto a nível interno, como externo e que conseguirá aguentar até os Estados Unidos se cansarem, por pressão da sua própria opinião pública. Os Estados Unidos tentam gerir danos e obter uma vitória política, além da militar. E a Europa observa, impotente, como quem assiste a um incêndio do outro lado da rua e percebe que o vento sopra na sua direção. A diplomacia, essa velha arte de evitar tragédias, parece ter sido metida na gaveta.

O mais inquietante neste conflito não é a violência, mas a normalização desta última, incluindo em comentários de responsáveis políticos e especialistas. É a sensação de que todos se habituaram a viver à beira do abismo e que a morte de seres humanos, quando não são dos “nossos”, merece ser relativizada. Como se a distância geográfica autorizasse a distância moral. Como se o sofrimento alheio fosse apenas mais um dado estatístico, útil para preencher gráficos e justificar decisões.

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