Para os políticos que cultivam o culto da personalidade, quase tudo o que a imprensa escreve de mau sobre o partido, o ministério ou a autarquia que dirigem é considerado um ataque pessoal. E o passo lógico seguinte é atacar o autor da notícia com a qual não concordam, desgostam ou, simplesmente, não lhes é favorável.Em 2006, Isaltino Morais – então na primeira passagem como presidente da Câmara de Oeiras – não gostou da manchete que o semanário Sol lhe dedicou, segundo a qual o Ministério Público lhe tinha apreendido a vivenda de férias que tinha em Alagoa (Algarve), “para evitar que fosse vendida”. O jornal citava a acusação do processo Isaltino Morais e referia que a vivenda lhe teria sido “oferecida pelo empresário João Algarvio” em alegada troca pela autorização de aumento da área de construção de um edifício em Oeiras.Apesar de se tratar do documento da acusação, Isaltino Morais não gostou, chamou “pasquim” ao jornal Sol e acusou os jornalistas responsáveis pela peça de serem pagos pelo então líder do PSD, Marques Mendes..Em 2011, Isaltino foi a julgamento por difamação dos quatro jornalistas do Sol. Dois anos depois foi detido para cumprir pena de prisão por crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Hoje, é novamente autarca em Oeiras.Os excessos de autarcas com a imprensa não são uma coisa do passado. E acusar os jornalistas de estarem ao serviço dos opositores e de propagarem fake news não é apanágio de líderes políticos do outro lado do Atlântico. Basta olhar para Coimbra.A recente guerra da presidente da Câmara de Coimbra contra a Agência Lusa tem contornos semelhantes, mas um desfecho mais perturbador.É que Ana Abrunhosa acusou um jornalista da Delegação Centro da agência “de fazer política” quando escreveu uma peça a dar conta de que a Casa de Cinema de Coimbra estava em risco de fechar, por falta de obras da câmara.Ao contrário de outros órgãos, a Lusa não tem por hábito escrever com base em fontes anónimas. Apenas o faz, com extremo cuidado, quando esta é a única opção para noticiar um tema de manifesto interesse público. E, tal como outros meios, rodeia-se de todos os cuidados, incluindo ter duas fontes não-relacionadas entre si a confirmarem a informação e cumprir o estrito exercício do contraditório.Na peça em causa, não houve fontes em off. O jornalista João Gaspar citou diretamente declarações do coordenador da Casa de Cinema de Coimbra, Tiago Santos. É este responsável quem coloca a hipótese de a estrutura cultural fechar se a Câmara não fizer obras.."A presidente da Câmara de Coimbra não só disse que o jornalista da Lusa tem uma agenda política, como sinalizou à direção da agência que, consigo na presidência, aquele jornalista não mais receberá informações da autarquia. Em suma: que será, a partir de hoje, uma espécie de proscrito.”.Para cumprir as regras da agência, João Gaspar confrontou a Câmara de Coimbra com a informação que tinha e esperou pelas respostas. Esperou nove dias. E as respostas nunca chegaram. Mesmo assim, antes de publicar a notícia, ainda fez uma última tentativa, contactando diretamente a responsável de Comunicação da Câmara.Para a Câmara de Coimbra, isto não foi suficiente. Ana Abrunhosa veio a público afirmar que iria “retirar a confiança” ao repórter da Lusa. E acrescentou uma acusação: “Se o jornalista quer fazer política, deve entregar a Carteira de Jornalista.”Ou seja, a presidente da Câmara de Coimbra não só disse que o jornalista da Lusa tem uma agenda política, como sinalizou à direção da agência que, consigo na presidência, aquele jornalista não mais receberá informações da autarquia. Em suma: que será, a partir de hoje, uma espécie de proscrito. Das duas uma: ou é uma tentativa de afastar o jornalista incómodo da cobertura de Coimbra ou, em alternativa, é uma tentativa de condicionar o seu trabalho daqui em diante. As duas são más e censuráveis.Três notas finais.Primeira. Os jornalistas não são florzinhas. Estão habituados a sofrer e a resistir a este tipo de pressões. E a outras, algumas bastante piores. Faz parte do trabalho.Segunda. Desconheço se há algum historial de “má água” ou incidentes anteriores entre Ana Abrunhosa e o jornalista da Lusa a quem quis “retirar a confiança”. Mas o ónus de o provar está agora do lado da autarca.Terceira. Fui jornalista da Lusa durante 15 anos. Até ao momento, não vi neste caso qualquer violação das regras da agência por parte do autor da peça. Acredito que, além de cumprir todas as regras deontológicas, os jornalistas devem estar disponíveis para aceitar o mesmo escrutínio que exercem sobre detentores de cargos públicos, sobre instituições ou empresas.É isso que gera a confiança de quem nos lê, vê ou escuta. E é uma confiança que não se tira por decreto.