Há uma fragilidade nova a instalar-se. Não é psicológica (no sentido literal, mas também é), geracional ou laboral. É fragilidade de construção. Uma geração que chega à universidade e ao trabalho com pais a submeter candidaturas, a acompanhar entrevistas, a ajudar em tarefas profissionais ou até a falar com chefias sobre promoções não revela apenas excesso de proteção. Revela uma falta gritante de autonomia. Falta-lhe qualquer muita coisa antes da empresa. Falta-lhe fundações.E parte dessas fundações perdeu-se quando deixámos de ter heróis. Ou quando deixámos de os levar a sério.O herói nunca foi apenas personagem de banda desenhada, cinema ou infância. Era um modelo narrativo. Uma forma simples de dizer a uma criança: podes ser mais forte do que o medo, mais leal do que o interesse, mais justo do que a conveniência. Tintin procurava a verdade. Astérix defendia a aldeia. Super-Homem ensinava força com contenção. Pippi das Meias Altas mostrava liberdade interior. Shrek lembrava que a rudeza pode esconder coração. Capitão América era dever moral. Lucky Luke fazia justiça sem teatro. Woody liderava cuidando. Não eram bonecos. Eram engenharia moral. Eram fundação.Quando estes modelos desaparecem, o espaço foi ocupado por ansiedade, por comparação, por dependência, por medo de falhar e por necessidade permanente de validação. A falta de heróis na fundação dos traços de personalidade abre zonas cinzentas. E nessas zonas entram vazios, frustrações e uma incapacidade reiterada: vencer sem sofrimento, estatuto sem qualquer caminho, promoção sem provas, reconhecimento sem riscos.O resultado é a fragilidade exponenciada. Não porque a Geração Z seja pior. Mas porque muitos adultos confundiram proteção com substituição, afeto com blindagem, acompanhamento com invasão. O erro deixou de ser aprendizagem (cai e levanta-te, por ti) e passou a ser trauma (coitadinho!). Sem heróis, a superação deixa de ser aspiracional. Sem role models fortes, a diferença deixa de ser construída por carácter e passa a ser procurada em imagem exterior.O mais grave é que esta fragilidade podia ser preenchida por vontade de fazer melhor. Por desejo de ultrapassar limites. Por ambição limpa. Por serviço. Por coragem. Por vontade de criar, na própria persona, um perfil de herói: alguém que assume, aprende, protege, entrega, falha e levanta-se, sem precisar de pai ou mãe, ou quem seja, nas entrevistas ou no seu percurso quer académico quer profissional.Nas organizações, o problema continua. Também aí matámos os heróis. Deixámos de valorizar quem ajuda colegas, segura equipas, ensina sem cobrar palco, resolve sem ruído e cuida da cultura real. Acabou o quadro de honra por ajuda aos outros. Substituímo-lo por métricas e slogans sobre talento. Porém, uma empresa sem heróis internos é apenas uma máquina com crachás.A pergunta é simples: se não damos heróis às crianças, que adultos esperamos receber nas empresas?Precisamos de voltar a construir heróis. Não salvadores. Pessoas com estrutura moral. Capazes de autonomia, de serviço, de lealdade, de coragem e de responsabilidade. Porque uma sociedade sem heróis não produz adultos livres. Produz adultos assistidos. E depois chama-lhes frágeis: snowflakes.