A opinião pública mundial vive, aparentemente, dominada pela ansiedade quanto a revelações bombásticas sobre os “grandes “deste mundo.Querem fazer-nos crer que uma certa “elite” que se movimenta entre os salões dourados da realeza, jatos privados que percorrem o mundo e locais paradisíacos, foi literalmente apanhada em trajes menores. E, para que tudo seja um pouco mais sórdido e apelativo, juntam-se uns pós de pedofilia. Se assim fosse estaríamos no domínio da imprensa cor-de-rosa e dos casos de polícia. Mas não me parece que assim seja.Parece que se pretende cultivar uma certa ideia de ambiente societal decadente em que todos nos vamos afundando e distraindo, passando ao lado de uma realidade mais verosímil, mais perene e mais relevante na longa História da Humanidade: informação, influência, dinheiro e poder.Perpassa a sensação de se estar perante uma enorme cortina de fumo que nos leva para o desresponsabilizador campo da “coscuvilhice de vão de escada”, do mesmo passo que nos faz olvidar os verdadeiros problemas. A censura a quem deveria ter agido e não agiu, e, diga-se também, as reais motivações de uma rede criminosa global.Enquanto isso o mundo tem uma outra visão dos riscos mundiais mais relevantes, como se demonstra num inquérito recente do World Economic Forum.O WEF identifica como riscos de curto prazo as confrontações geoeconómicas, a desinformação, a radicalização da sociedade e os conflitos armados entre os Estados. Já quanto ao longo prazo, os inquiridos priorizam os fenómenos meteorológicos extremos e a diminuição da biodiversidade, as consequências negativas das tecnologias, a cibersegurança e as desigualdades.Ora, o que parece estar a acontecer à escala global é que nem se discutem as questões essenciais, nem a real dimensão do escândalo dos ficheiros. Discute-se a alcova.De facto, à medida que a informação vai sendo disponibilizada o que salta à vista de um leitor médio são perversas e dissimuladas relações de poder e de cumplicidade entre quem as não poderia nunca ter tido; é uma desmesurada ganância financeira que a tudo se sobrepõe, incluído aos Estados e aos seus interesses vitais; são os “pés de barro” de muitos protagonistas que, por décadas, fomos tendo como referências.A pedofilia é crime e como tal deve ser tratada com a dureza que merece. Infelizmente quase não há notícias de condenações. O que parece é que a dimensão sexual do escândalo é o "menor” dos problemas. O que verdadeiramente é preocupante é que o mundo continua sem saber e sem debater o que os dirigentes Ocidentais fizeram, por sua iniciativa ou por “sugestão” alheia.A verdadeira questão só é de alcova na justa medida em que é relevante saber “quem é que se meteu na cama com quem não devia”. Podemos continuar a cultivar o fait-divers ou optar por pensar e agir. Verdadeiramente o que parece que temos é uma elite despida de princípios, referências e lealdade aos seu estados e aos seus concidadãos.