Um sorriso no meio do terror

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Em Portugal, chamam-se crónicas a textos

que provavelmente não são crónicas. São

textos em que as pessoas dizem o que pensam,

misteriosamente igual ao que a pessoa da

véspera já tinha pensado.

Abel Barros Baptista

In Público de 9 de outubro pp

A escrita destes textos semanais, que desliza entre manifestação de opiniões e interrogações à própria escrita, tem-me afastado da poesia, sem me aproximar das elegantes digressões que tanto admiro em Montaigne. A leitura destas observações de Abel Barros Baptista levou-me ao saudável exercício de pôr em causa o modo de dizer de tudo o que aqui tenho dito.

Escrever semanalmente para o Diário de Notícias permite obrigar-me ao exercício de uma escrita, justamente oscilante entre o artigo de opinião, o ensaio curto e a crónica, sem nunca chegar a uma definição do terreno que piso ou a uma satisfação do autor que sou (também o conselheiro Acácio “era autor” e essa reminiscência queirosiana assusta-me mais do que a “morte do autor”, anunciada já há uns bons anos por Barthes e contrariada hoje pelo narcisismo do nosso tempo). É que a ideia de Barthes impregnou a minha geração e fez-nos procurar, num texto, o que se desenha no que ele não diz, fazendo-nos perder a especificidade da voz que nos dá esse texto. Mas por detrás do autor continua a pairar o sorriso do conselheiro Acácio...

A escrita sobre nada, sonho de Mallarmé, para a poesia, e de Flaubert, para o romance, talvez conheça uma aproximação paradoxal nos grandes cronistas brasileiros. É certo que as suas crónicas partem sempre de um objeto, facto ou situação definidos. Mas o desenvolvimento da crónica incide mais no olhar irónico do cronista e na escrita que desse olhar decorre, que do facto ou situação de que partem, que se tornam a pedra da magnífica sopa de pedra que nos cozinha um Rubem Braga ou um Nelson Rodrigues.

Tudo isto para declarar que não sei bem o que ando aqui a fazer, o que pode bem afastar destas linhas os meus poucos leitores, desiludidos com tantas tergiversações.

Uma amiga minha, que faz o favor de me ler, disse-me que o tema subjacente aos meus últimos artigos tem sido sempre o envelhecimento e a morte. Posso alegar que nestes tempos apocalípticos, em que todos os dias nos anunciam o fim do mundo, seja por força da corrosão da natureza pelo antropoceno, seja por ação das redes inexoráveis da Inteligência Artificial, seja pela velha e sempre nova guerra nuclear, nada há de mais atual que olhar para esse “sol negro da melancolia” que nos traz a atualidade e procurar esboçar um sorriso no meio de tantos terrores.

Um sorriso no meio do terror seria um bom programa para uma escrita leve, dotada da ligeireza que Italo Calvino propunha para o século XXI, e, ainda que atravessada pelo conhecimento do medo e da dor, que dominam os nossos pesadelos e pontuam os nossos dias, capaz do riso em face do horror, da ironia em face da boçalidade, da inteligência humana em frente do caos. Deixaremos de ser essa espécie suicida em que nos querem tornar, se formos capazes de manter e propagar o sorriso, o riso, o humor. Se conseguirmos não nos tomar completamente a sério, incluindo até o conselheiro Acácio e os dirigentes políticos mundiais. Pode não ser a salvação, mas pelo menos seria uma saída digna.

Diário de Notícias
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