Um regresso triste

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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No dia em que saí de Deli, uma grande manifestação, convocada pelos chamados “cockroaches” (baratas) decorria na capital indiana.

Quem são os “cockroaches”?

Inicialmente um movimento de estudantes, indignados com a fuga para o público de um texto de exame e com as condições de sanidade das escolas (as baratas...), veio a alargar-se a outros setores descontentes da política e da sociedade indianas, levando hoje a manifestações de dezenas de milhares de pessoas.

E já existe um partido dos “cockroaches”.

Qual a raiz da frustração destes jovens?

Apesar do inegável crescimento económico da Índia, este não tem sido acompanhado por um crescimento proporcional de empregos qualificados e de salários para os quadros médios, o que leva à frustração de uma juventude crescentemente bem preparada, que não vê um futuro ao alcance das suas esperanças e do trabalho que deu aos estudos que realizou.

Ao chegar a Lisboa, continuo a ver no meu país manifestações de jovens descontentes, que são reprimidas à bastonada pela polícia, sem qualquer violência prévia da parte dos manifestantes.

Qual a raiz deste descontentamento? Os preços da habitação, de tal modo especulativos por força das leis do mercado (onde fundos de investimento imobiliário e pessoas, e entidades de outros países mais ricos fazem concorrência desigual a cidadãos portugueses com baixos salários), que tornam para os jovens recém-formados a habitação própria praticamente inacessível.

Ao fim e ao cabo, o mesmo problema da Índia e de toda a Europa (onde, em alguns casos, as manifestações assumiram contornos de violência, nunca vistos por cá): uma juventude que se formou com esforço para um futuro que não responde minimamente às suas expetativas de vida.

Um cartoon de génio sintetizava a questão: um velho exclama “Que querem os novos? Têm o futuro à frente e nós não”, a que um outro, mais avisado, responde: “Pois é esse mesmo o problema.”

Se o descontentamento se alarga no mundo, haveria que, prioritariamente, tentar ir ao encontro das raízes do problema, que não é uma mera questão de ordem pública.

O que falta aos jovens é o que move todas as gerações: a promessa de um futuro melhor.

Essa promessa, que está na base do próprio desenvolvimento humano, como de todos os apelos políticos, deixou de ser cumprida pela sociedade do nosso tempo. A frustração daí decorrente terá contornos cada vez mais graves e perigosos.

Regressar de longes terras e encontrar aqui as mesmas dificuldades e angústias faz-nos pensar que finalmente há um só mundo, mas não deixa de nos encher de uma ansiosa tristeza.

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No encontro de diplomatas e escritores, a que assisti em Nova Deli, pude testemunhar a grande preocupação da diplomacia indiana com uma situação global que, a seus olhos, só favorece a China.

China que, apesar das mais recentes tentativas de aproximação entre Modi e Xi Jinping, continua a ser, para a Índia, uma preocupação mais do que uma parceria. Recentes incidentes fronteiriços vieram, aliás, recordar esta permanente e subjacente tensão entre os dois grandes da Ásia.

Os meus amigos indianos diziam-me “não pensem que a China é inocente”. Na visão deles, com os Estados Unidos imprevisíveis, a Rússia devotada à guerra e a Europa enfraquecida e ameaçada, o futuro será da China. E isso não os faz felizes.