Um país em busca da paz

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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A Colômbia está no imaginário coletivo. De uma forma muito positiva através da sua literatura, com Gabriel García Márquez como expoente. Ainda há dias fiquei muito agradado com a minha filha quando a vi pegar uma velha edição de Cem Anos de Solidão que estava lá por casa. A leitura dela continua. Como continuam, e isso é realmente mágico, a surgir grandes escritores colombianos. Dou só um nome: Juan Gabriel Vásquez, cujo romance mais recente editado em Portugal tem por título Os Nomes de Feliza e, através da história trágica de uma escultora colombiana, nos traz também um pouco da História colombiana e vislumbres de uma sociedade muito complexa. Só para aguçar a curiosidade, digo que, sobre Feliza Bursztyn, García Márquez, que jantou com ela na noite da morte, escreveu uma crónica onde dizia que a amiga morreu de tristeza.

Por outro lado, desde que comecei a ser jornalista, há mais de 30 anos, habituei-me também a ver a Colômbia nas notícias por causa das guerrilhas, dos grupos armados vários, alguns com referências ideológicas, todos com ligações aos negócios ilegais, sobretudo o narcotráfico. É uma realidade que teve grandes desenvolvimentos na última década, depois de um acordo de paz em 2016 que trouxe expectativas e até o Prémio Nobel da Paz para o então presidente Juan Manuel Santos. A paz total, como ambiciona Gustavo Petro, o atual presidente, continua por alcançar, e se há quem esteja a negociar para depor as armas, há quem aposte na perpetuação da violência, como uma dissidência das FARC que, há dias, provocou uma explosão que matou duas dezenas de pessoas.

Esteve em Portugal o homem a quem Petro confiou negociar a paz. Tal como o próprio presidente, Otty Patiño é um antigo guerrilheiro do M-19, um grupo que no final dos anos 1980 negociou a paz e participou na redação de uma nova Constituição. Patiño foi um dos membros da Assembleia Constituinte, da qual saiu a Constituição de 1991, um grande avanço para o reforço da democracia na Colômbia. Na selva, dois grupos, as FARC e o ELN, continuaram, porém, a luta armada, beneficiando das desigualdades sociais, e do abandono de algumas regiões por parte do Estado. Contra a ideologia de esquerda destas guerrilhas, surgiram grupos paramilitares também envolvidos em violências várias.

"Para nós portugueses, a Colômbia não é longe. Há afinidades várias. E até investimentos de empresas portuguesas naquela que é a quarta maior economia da América Latina."
"Para nós portugueses, a Colômbia não é longe. Há afinidades várias. E até investimentos de empresas portuguesas naquela que é a quarta maior economia da América Latina." FOTO: Adelino Meireles / Global Imagagens

O acordo de paz de 2016 envolveu as FARC, a mais importante guerrilha. Foi um processo negocial complexo, com o fim da luta armada e integração na sociedade e na política. O ELN ficou de fora. E depois houve dissidências nas FARC que desistiram do processo de paz, com caminhos diversos até hoje.

Quem nunca desistiu de tentar a paz foi a Colômbia. Os sucessores de Santos, cada qual com a sua interpretação das possibilidades, mantiveram esse caminho. Petro foi o mais ambicioso, e Patiño tem tido, com a sua equipa, um trabalho multifacetado, pois são muitas as frentes. É preciso, por exemplo, responder às populações tradicionalmente negligenciadas, trazer o Estado de Direito de novo aos territórios cujo desespero social permitiu o sucesso dos bandos armados. E oferecer alternativas ao cultivo ilícito de coca e proporcionar empregos a quem, para sobreviver, se envolveu no tráfico.

Mas também há que deixar claro que quem não quer a paz terá a resposta da Justiça. Como os autores do ataque de há dias.

Para nós portugueses, a Colômbia não é longe. Há afinidades várias. E até investimentos de empresas portuguesas naquela que é a quarta maior economia da América Latina. Também os colombianos nos veem como próximos. Santos veio a Lisboa em 2017 para um doutoramento honoris causa pela Universidade Nova. Na época, proclamou o seu otimismo com o processo de paz. Depois, visitaram também Portugal os presidentes Iván Duque e Gustavo Petro. No final de maio, haverá eleições e o novo presidente herdará grandes desafios. Provavelmente, a acreditar no exemplo dos antecessores, visitará um dia Portugal, e será uma boa oportunidade para contar quão perto, espera-se, estará então a paz total.

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