Um papa é um papa, e este é americano

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Al Smith, de famílias italianas e irlandesas, foi em 1928 o primeiro católico a ser candidato presidencial por um dos grandes partidos americanos. Democrata, perdeu para o republicano Herbert Hoover, e a campanha foi muito marcada por ataques ligados à fé, até a ideia absurda de que construiria um túnel a ligar a Casa Branca ao Vaticano. Foi preciso esperar até 1960 por um novo candidato presidencial católico, de novo democrata, mas dessa vez vencedor: John Kennedy. Mesmo assim, o catolicismo do rival de Richard Nixon foi ainda tema de campanha (o tal túnel?), afinal a América fundou-se e afirmou-se como país de matriz cristã protestante e desconfiada da Igreja Católica. Muitos dos puritanos que atravessaram o Atlântico, como os famosos Peregrinos do Mayflower, fugiam de uma Igreja Anglicana que lhes parecia ainda demasiado parecida com a de Roma.

Em 2020, um segundo católico, o democrata Joe Biden, foi eleito presidente. Durante a campanha contra Donald Trump, o presidente republicano então a cumprir um primeiro mandato, as questões de fé não foram dominantes, talvez porque deixasse de haver quem pensasse haver contradição entre catolicismo e americanismo, talvez porque o eleitorado católico votasse quase em partes iguais nos candidatos dos dois partidos. Se em 2016, contra Hillary Clinton, Trump tinha sido o mais votado pelos católicos, quatro anos depois perdeu nesse eleitorado por muito pouco. Depois, em 2024, o republicano bateu claramente no voto católico a democrata Kamala Harris, nas eleições que o levaram de novo à Casa Branca. O crescimento de apoio aos republicanos entre os hispânicos, em regra católicos, explica esse bom resultado de Trump.

Ora, se a relação entre catolicismo e política se normalizou nos Estados Unidos nos últimos anos, o facto de haver pela primeira vez um papa americano traz elementos novos, em especial se esse papa, sem dizer nomes, fala de guerras e condena quem faz a guerra. E se a seguir o presidente americano critica e o papa responde, como agora aconteceu, o tão temido choque entre ambos já aconteceu, e num tom nada bonito. Trump, agressivo, afirmou que Leão XIV faz um mau trabalho, e o papa respondeu, com a calma possível, que não tem medo da Administração americana.

Será suficiente esta troca agreste de palavras, se não se repetir, para voltar a fazer do catolicismo um tema de clivagem política nos Estados Unidos? Provavelmente não, mas nunca se sabe num país em que a religião está na esfera pública com uma intensidade diferente do que acontece na Europa.

Trump, proibido pela Constituição de disputar um terceiro mandato em 2028, em teoria não teria de estar muito preocupado, tirando pelas estatísticas de popularidade e pela imagem projetada para dentro e fora do país. Mas o sucesso desta sua segunda presidência, em termos de objetivos ideológicos, depende de manter um Congresso de maioria republicana depois das eleições intercalares de novembro deste ano. As sondagens dão a situação complicada na Câmara dos Representantes, que se renova na totalidade, mas mais tranquila no Senado, no qual só um terço dos assentos vai a votos. Atualmente, para cerca de 20% de americanos católicos na população, há 28% de representantes católicos e 24% de senadores católicos, em ambas as situações com ligeira vantagem para os democratas em termos de número de eleitos. Haverá impacto junto do eleitorado católico da troca de palavras entre Trump e Leão XIV, nascido Robert Prevost?

Sem dúvida que o presidente americano não sai bem do que se passou, até porque criticar a guerra, qualquer guerra, e apelar à paz, faz parte do discurso deste papa, como dos seus antecessores. E haverá católicos desconfortáveis com a situação, católicos que têm votado republicano e que podem dentro de meses hesitar em ir às urnas ou até mudar o voto. Como as eleições para o Congresso são na realidade uma multiplicidade de pequenas eleições locais (435 no caso da Câmara dos Representantes), o resultado final dependerá de temas tão diversos como a economia ou a imigração, vistos à luz de cada distrito eleitoral, mas que em parte deles possa ter alguma influência a questão da fé católica, mostra como este choque entre o presidente e o papa vem em claro contraciclo da história americana, num momento em que até há um vice-presidente, JD Vance, ex-protestante convertido ao catolicismo. Além de que a primeira dama, Melanie Trump, é católica e tem um rosário abençoado por Francisco, papa que conheceu ao lado do marido, numa ida ao Vaticano.

O mais revelante, à parte um impacto eleitoral difícil de prever a sete meses de distância, em todo este episódio com Leão XIV é ter mostrado que Trump, líder do mais poderoso país do mundo em termos económicos e militares, frustrado com o impasse na guerra com o Irão, tem dificuldade em perceber a importância do chefe da Igreja Católica (que neste momento está na Argélia, o maior país de África, país muçulmano, nunca antes visitado por um papa). Talvez a mulher e o seu vice possam relembrá-lo disso, e como é absolutamente histórico que pela primeira vez seja um americano a estar à frente da Santa Sé.

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