Há uma frase que devia envergonhar Bruxelas mais do que qualquer derrota no terreno. Disse-a Andrii Sybiha, ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, quando a União Europeia (UE) retirou dois oligarcas russos da lista de sanções no mesmo acto em que a renovava. Chamou-lhe vergonhosa e injustificada, e resumiu o que Moscovo ganhou numa tríade: uma sensação de impunidade, a humilhação da União e a divisão entre europeus. Não é retórica. É diagnóstico.
A mecânica explica tudo. As sanções à Rússia têm de ser renovadas, e a renovação exige unanimidade. Vinte e sete votos no mesmo sentido, ou não há sanções. Parece garantia de soberania. É, na prática, um mercado de vetos: quem pode bloquear tudo pode cobrar para não bloquear nada. A França exigiu a saída de Alisher Usmanov, o magnata dos metais, num enredo ligado a cidadãos franceses detidos no Azerbaijão. O Luxemburgo, a de Mikhail Fridman, do Alfa-Bank, que lhe move um pedido de indemnização de dezasseis mil milhões de dólares. A Eslováquia, sem surpresa, alinhou com ambos. Nenhum estava a pensar na Ucrânia. A Letónia resistiu pela razão inversa e acabou por abster-se, não sem levar de Paris conversas sobre a dissuasão nuclear francesa. Até a firmeza teve contrapartida.
E isto passou-se já sem o famigerado Viktor Orbán, o “cavalo de Tróia” a quem se atribuía, por comodidade, toda a paralisia europeia. Orbán saiu, o bloqueio ficou. O problema nunca foi um homem. É a regra. E o próprio preço pago, renovar por três anos em vez dos habituais seis meses, é a confissão involuntária de que Bruxelas já não aguentava ir a leilão duas vezes por ano. Esta é a face política da fraqueza. Há outras duas.
A segunda face é financeira. Enquanto a UE mercadejava dois nomes, uma investigação do Financial Times mostrava a rede A7, montada por Ilan Shor, o oligarca moldavo foragido, com o banco estatal da indústria de defesa russa. Terá feito passar quase sete mil milhões de dólares por grandes bancos internacionais, com empresas-fachada e facturas falsificadas. Está sancionada pela União, por Washington e por Londres, e não fez diferença. Sancionar com uma mão enquanto o dinheiro atravessa o sistema pela outra é fechar a porta e deixar a janela escancarada.
A terceira face é industrial, e aponta-nos ao espelho. O Kyiv Independent mostrou mais de cinquenta fábricas de armamento russas, a Kalashnikov incluída, a trabalhar com máquinas-ferramenta alemãs e suíças mantidas por uma rede ligada à Suíça. E os destroços de mísseis revelam microelectrónica europeia, que chega por triangulação, via Hong Kong. A Rússia bombardeia cidades ucranianas com armas feitas, em parte, com máquinas e tecnologia nossas.
Três casos, uma raiz. A humilhação tem rosto político na lista amputada. A impunidade tem rosto financeiro e industrial, no dinheiro e nas peças que continuam a passar. A divisão é a raiz de tudo, uma regra que permite a cada capital converter uma decisão comum em moeda de troca nacional.
A maior ameaça à União, hoje, não é o poder russo. A Rússia é uma potência em declínio, com uma economia em crise e uma dependência crescente da China. A maior ameaça à União é a sua incapacidade de decidir. Moscovo não precisou de vencer batalha nenhuma para celebrar esta semana. Para quê destruir a União, se ela se deixa comprar por partes?
Não defendo abolir salvaguardas nem passar por cima dos Estados. Defendo graduar os assuntos e reservar a maioria qualificada para os fundamentais, a renovação de sanções à cabeça. Mas o essencial é reconhecer que a unanimidade, tal como hoje funciona, se tornou o instrumento da pequenez de decisões nacionais que se sobrepõem a interesses maiores. Enquanto as sanções puderem ser renovadas a troco de um oligarca de cada vez, não temos uma política de sanções, temos um leilão. E um leilão não dissuade ninguém.
A guerra que a Rússia trava contra a UE não se decide só nas trincheiras ucranianas. Decide-se na nossa capacidade de fechar a lista, o banco e a fábrica ao mesmo tempo. Por enquanto, fechámos os três a meio. E deixámos, mais uma vez, que Moscovo escolhesse por nós aquilo que não fomos capazes de decidir sozinhos.