Um olho em Ormuz e outro no curto prazo

Nuno Vinha

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a

A Guerra no Irão – que começou com o ataque norte-americano e israelita contra o Irão, piorou com o consequente bloqueio do Estreito de Ormuz e culminou numa crise energética sem precedentes – tem sido alvo de extensa e detalhada análise, sobretudo quanto à atuação de Washington (e Donald Trump) e de Teerão. Pouco se tem analisado a atuação conjunta da União Europeia e isso, por si só, já diz imenso.

Por um lado, assistimos a um suceder de posições unilaterais, erráticas , contraditórias e contraproducentes dos Estados Unidos – que parecem ter iniciado uma guerra sem um plano claro, sem objetivos bem definidos e sem acautelarem uma porta de saída para o conflito. Do outro lado, temos um regime iraniano extremista, cruel e letal para com os cidadãos do seu país que discordam política e religiosamente da via estatal. Um regime que patrocina grupos e atos terroristas na região e noutras partes do mundo. Um regime que, agora – sob ameaça de aniquilação civilizacional (sim, um presidente dos EUA ameaçou exterminar um povo inteiro...) –, gere e, provavelmente, pretende perpetuar um sistema em que mantém refém o Estreito de Ormuz, cobrando uma portagem de até dois milhões de dólares por cada navio, megapetroleiro ou não, que por ali passe.

Um regime que, agora (...) gere e, provavelmente, pretende perpetuar um sistema em que mantém refém o Estreito de Ormuz, cobrando uma portagem de até dois milhões de dólares por cada navio, megapetroleiro ou não, que por ali passe."
Um regime que, agora (...) gere e, provavelmente, pretende perpetuar um sistema em que mantém refém o Estreito de Ormuz, cobrando uma portagem de até dois milhões de dólares por cada navio, megapetroleiro ou não, que por ali passe."

Aqui estava uma oportunidade de ouro para a Europa, o Velho Continente, falar a uma só voz, como o adulto na sala (que quase nunca é). Vinte e sete nações, das mais desenvolvidas do mundo, economicamente médias no contexto mundial, mas enormes se forem consideradas em conjunto, pelos mais de 450 milhões de cidadãos, eleitores e consumidores. Como a UE e o seu corpo executivo, a Comissão, não fala militarmente, a resposta conjunta teria de ser em termos económicos, sociais e políticos.

O que vimos foi uma repetição do que sucedeu nas primeiras fases da covid, em 2020, e na crise energética que depois se levantou: uma resposta fragmentada dos Estados-membros, com medidas avulsas e, obviamente, de caráter nacional.

Vinte e dois dos 27 Estados-membros já anunciaram mais de 120 medidas, cujo custo combinado ascende a nove mil milhões de euros. Vão das medidas fiscais (reduções dos impostos sobre o consumo ou dos impostos aplicados diretamente sobre os combustíveis, como foi o caso de Portugal), até medidas de fixação de tetos nos preços da gasolina e do diesel ou imposição de limites diários ao consumo.

"Face ao bloqueio do estreito e à crise energética 'os governos [europeus] estão a favorecer um alívio imediato e visível para os seus cidadãos, apesar dos riscos de longo prazo'."

Uma análise do Instituto Jacques Delors aponta uma evidência , que nem sequer é de agora. “Os governos [europeus] estão a favorecer um alívio imediato e visível para os seus cidadãos , apesar dos riscos de longo prazo: a fixação de preços máximos elimina os sinais que os mercados dão sobre a procura, o que cria condições para escassez”. Este padrão de ‘curto-prazismo’ dispendioso não é novo – na anterior crise, entre 2022 e 2024, custou 2,2% do PIB europeu.

Pior, esta postura individualista a que assistimos atualmente, “assenta na assunção de que haverá uma rápida resolução para o conflito”. Ora, isso é tudo menos certo. Especialmente porque ambas as partes que chegaram a um “cessar-fogo” – negociado com a ajuda do Paquistão – estão mais focadas na parte do fogo do que na parte do cessar. Ou seja, a Europa está, mais uma vez, não só à mercê dos acontecimentos, como à espera de, novamente, não ter de fazer nada (sobretudo em conjunto). À espera que tudo se resolva com o trabalho dos outros e que tudo volte ao “business as usual”.

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