Um museu em Marselha para unir mundos desavindos

Helena Mendes Pereira

Gestora cultural e curadora

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O MUCEM (Musée des Civilisations de l’Europe et de la Méditerranée) não é só um dos símbolos da renovação urbana de Marselha no século XXI, nem foi só o primeiro grande museu nacional francês instalado fora de Paris e, ainda que fosse apenas isso, já merecia todas as nossas vénias.

Inaugurado em 2013, no ano em que “a porta do Mediterrâneo” foi Capital Europeia da Cultura, o MUCEM parece flutuar sobre o mar, tendo-se tornado um marco da arquitetura contemporânea que dialoga com o histórico Forte de Saint-Jean e desagua num novo edifício, conhecido como J4, projetado pelo arquiteto francês Rudy Ricciotti (Argélia, 1952) em colaboração com Roland Carta (França, 1951). Este edifício parece um cubo de vidro envolvido por uma delicada malha de betão preto, que se inspira em formas orgânicas do Mediterrâneo, funcionando como uma pele que, simultaneamente, protege contra o intenso sol de Marselha e cria poéticos jogos de luz e sombra.

O MUCEM é, também, um exemplo de como os museus estão a pensar as temáticas das identidades cristalizadas no pressuposto das imutáveis tradições que funcionam como bloqueadores do progresso civilizacional e, se quisermos, da empatia, enfatizando polarizações que partem, indubitavelmente, desta distância e diferença perniciosa entre passado, presente e futuro.

Tem um acervo de mais de 350 mil objetos e cerca de um milhão de documentos e peças, provenientes sobretudo do antigo Museu Nacional das Artes e Tradições Populares, criado em 1937 em Paris, que o Estado Francês decidiu reinventar e transferir para a costa da Provença. A mudança, integrada num projeto político mais amplo de tornar Marselha em mais do que um grande porto, mal-afamado pelas desigualdades sociais e pela máfia, deixou de ser um museu dedicado apenas às tradições populares francesas e passou a estudar e a apresentar as civilizações da Europa e do Mediterrâneo, reunindo história, antropologia, arqueologia, arte e questões contemporâneas como migrações, religiões, comércio e as identidades culturais.

O museu quis e quer ser, a partir das coleções e dos objetos do passado e do presente, exemplo do encontro de culturas de que sempre foi feita a História, adotando uma estratégia curatorial multidimensional e multidisciplinar que cruza tempos e espaços a partir de narrativas comuns a todos os seres humanos, como é exemplo a exposição Bonnes Mères, patente até 31 de outubro de 2026 e que procura refletir sobre a maternidade nas suas várias dimensões e representações, evocando os direitos, liberdades e garantias que as mulheres foram conquistando e tudo aquilo que está ainda por conquistar.

Outro exemplo extraordinário de um museu de território com esta estratégia e esta amplitude é o Museum aan de Stroom (MAS), em Antuérpia, curiosamente, símbolo também da renovação de uma antiga zona portuária e que inaugurou em 2011.

Os exemplos poderiam ajudar-nos a pensar o que queremos, por exemplo, com o (futuro) Museu das Convergências no Porto ou mesmo de projetos polinucleares, como o museu que a cidade de Braga quer levar a cabo: pensar a multiplicidade das coleções para pensar, de forma transversal, a multiplicidade que é o mundo em que vivemos.

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