Celebrámos há dias, em Leiria, os 30 anos do projeto MUS-E em Portugal na abertura do ano letivo com a presença dos professores, das comunidades educativas e do poder local. António Sampaio da Nóvoa salientou a função essencial dos professores e a necessidade de salvaguardar a sua “auctoritas” na sociedade atual, como capacidade criadora, como fundamento de responsabilidade, como troca e encontro, assentes no duplo valor da Liberdade e da Humanidade.
Tive o gosto de representar com um velho companheiro do maestro Yehudi Menuhin, Werner Schmitt, e a sua fiel colaboradora Marianne Poncelet, a Fundação Internacional que tem por missão manter vivo este extraordinário projeto criado por uma das grandes figuras da música mundial no século XX. O MUS-E foi uma iniciativa de Sir Yehudi Menuhin centrada numa visão humanista do mundo, inspirada pelo conceito de Zoldan Kodaly (1882-1967), assente no entendimento de que a música e as artes em geral devem constituir elementos essenciais de uma educação acessível a todos, visando a construção de uma sociedade aberta e intercultural, no sentido de um mundo melhor.
Lembramo-nos da memorável visita do genial Maestro à Escola nº 1 de Algés, na Pedreira dos Húngaros, em 1998 com Helena Vaz da Silva e Eduardo Marçal Grilo e do longo caminho que tem sido possível trilhar em 13 países, com resultados notáveis na qualidade educativa, pela motivação dos estudantes e na afirmação das comunidades educativas.
Pela presença dos artistas nas escolas tem sido possível reforçar as comunidades educativas e melhorar os resultados em meios socialmente difíceis, graças à demonstração de que a aptidão artística se traduz em melhores resultados na literacia, na matemática e nas ciências. Daí a importância da exigência, de um rigoroso processo de avaliação e do apoio cognitivo aos alunos com dificuldades. Só assim poderemos alcançar o perfil dos alunos no final da escolaridade obrigatória e realizar o objetivo da educação e formação ao longo da vida.
Longe da tentação de encarar a educação como um domínio abstrato, redutível a alguns lugares comuns ou à existência de receitas universais, Menuhin ensinou-nos que só o trabalho, a exigência, o respeito mútuo, a curiosidade, a compreensão das diferenças e a sensibilidade humana podem conduzir a resultados positivos. E recordava o momento em que, com 13 anos de idade, em 1929, o jovem prodígio tocou em Berlim maravilhosamente sob a direção de Bruno Walter, concertos de Bach, Beethoven e Brahms. Albert Einstein, no final, abraçou o “menino mágico” e disse-lhe: “Agora sei que há um Deus no céu.”
Tenho afirmado que Yehudi Menuhin é o verdadeiro símbolo de um herói da Educação. Uma sociedade culta e civilizada necessita de uma tal referência, pois a presença das artes e dos artistas corresponde à necessidade de encarar a liberdade e a humanidade como fatores de criatividade e de busca de sentido para a vida. Só a aprendizagem permite que nos desenvolvamos. Caso contrário, a sociedade fecha-se e perde iniciativa e coragem.
Menuhin insistia: “É preciso que desde a infância se diga ‘Posso empregar o meu corpo, vou fazer dele uma obra, tenho talentos, em todos os sentidos, reconheço-os em mim e posso apreciá-los em outrem; posso fazer coisas belas com os outros’. É necessário sugerir uma ligação com o inconsciente que se una ao consciente.”
Só boa aprendizagem permite criar um mundo melhor!