Um Banco Ético e a convicção da Felicidade

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Na crónica de hoje deixarei as palavras se escreverem. Há dias em que vale a pena pensar o mais livremente possível, sem um assunto dominante e sem procurar números ou argumentos que comprovem ou tornem inteligível um ponto de vista. 

Estou talvez influenciado por um momento relevante para a Caixa Agrícola que lidero. Após um período de maturação entregámos a nossa candidatura à Global Alliance for Banking on Values (GABV), organização internacional composta por mais de sessenta bancos e cooperativas de crédito – a confirmar-se a nossa entrada, seríamos a primeira instituição portuguesa a poder afirmar-se como Banco Ético. 

A preparação da nossa candidatura foi um trabalho pesado  que agradeço às diversas estruturas da Instituição. Somos um banco cooperativo líder entre as nossas gentes. Temos 55 por cento dos balcões e metade dos depósitos de todo o concelho, a confiança da comunidade no que fazemos apenas encontra um paralelo na simpatia da cidade ao seu clube mais representativo, o Torreense. Há uma ligação de sempre entre as duas instituições – eu próprio fui há muitos anos presidente da Assembleia-Geral do clube –, mas é mais do que isso. Combatemos os mesmos preconceitos, acusam-nos de ser românticos e de tanta poesia pagar-se com défice de rentabilidade. 

Não nos levam a sério até ao dia em que nos levam a sério. 

Há uns anos, numa entrevista, ouvi Rui Nabeiro recordar os anos em que começou a conquistar quota-de-mercado no negócio do café. Era alentejano, bonacheirão e quase analfabeto: ninguém o via como concorrente. Quando deram o “pobre” alentejano ultrapassara-os entre uma ginjinha e um cheirinho de pata negra. O caminho do Torreense tem sido um pouco isso. O país simpatizou com a ousadia das gentes do Oeste, até ao dia em que, em pleno Estádio Nacional, conquistaram duas Taças de Portugal e se apuraram, em homens e mulheres, para as provas europeias. 

Também nós somos dominantes em Torres Vedras. A identidade da nossa instituição vive da proximidade, do retorno à comunidade de uma parte substancial do lucro. Somos a maior Caixa Agrícola a operar num único concelho sem nunca deixarmos de ser prudentes. O nosso rácio de transformação é de 30 por cento. Somos exigentes no crédito por não nos podermos dar ao luxo de falharmos. Em dez pedidos aprovamos quatro operações, uma política de crédito conservadora que não nos impede de crescer e de ter celebrado nos últimos anos, e sucessivamente, os melhores resultados da nossa história centenária. Em quatro anos aumentámos em 30 por cento os capitais próprios. 

Eficiência social gera eficiência financeira. A confiança da comunidade gera entusiasmo e resultados. No futebol, nas empresas, na banca e também na vida. São anos decisivos e revolucionários. O mundo alterar-se-á nos seus paradigmas. A Inteligência Artificial e a Tecnologia terão um efeito esmagador, a esperança de vida, e ainda bem, aumentará. Se não alterarmos modelos sociais será impossível envelhecermos com qualidade, corremos o risco de ter 500 mil pessoas com doenças neuro degenerativas e outras 500 mil a cuidar delas se a comunidade não se organizar. 

Precisamos de casas em que as pessoas possam viver. Casas mais baratas que tornem a felicidade uma ideia outra vez possível. Vendemos há uns dias à Câmara Municipal um terreno em Santa Cruz que facilita a requalificação da reta e sem especulação imobiliária para que possam ser construídas habitações a baixo preço – a ideia de que as casas junto à praia estão vedadas a remediados daria um outro artigo, a condenação dos pobres a terem de viver em zonas mais deprimidas do que eles próprios é todo um programa. 

Escrevi há uns dias sobre Agostinho da Silva e a sua paixão pela interligação dos saberes, pelo regresso ao tempo das ideias, dos filósofos, das ágoras. Acreditamos nisso. A última jovem que admitimos na Caixa Agrícola é licenciada em Psicologia, as organizações ganham com a diversidade, com gente da Filosofia, da Biologia, das engenharias. No nosso Conselho Estratégico respeitamos esse princípio. Por isso, temos a Profª. Elvira Fortunato, o Prof. Joaquim Ferreira ou a Prof. Isabelle Oliveira, da Sorbonne. Somos estes, não desejamos ser outros. 

Desejamos ganhar assim. Ser um banco ético. Acreditar no futuro e na felicidade. Ter resultados sem hipotecar a confiança dos que confiam. Ser do país e do mundo, mas a partir de Torres Vedras. 

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