Peço desculpa pela digressão auto-complacente, mas existem momentos em que importa relembrar o que foi dito sobre situações que poderiam ser prevenidas em tempo útil. Há um ano, escrevia nestas páginas o seguinte, após a divulgação do enunciado da prova final de Matemática do 9.º ano, em formato digital, que o MECI tinha decidido que deixaria de ser de acesso público. Transcrevo de forma alongada para não me repetir.“(…) atendendo às precárias condições técnicas com que estas provas são realizadas, desconhece-se que medidas foram tomadas – se é que foram – para assegurar que existem medidas de cibersegurança que contrariem as possibilidades da transmissão para o exterior do conteúdo das provas, em tempo real ou diferido, pois há ferramentas (como o Chrome Remote Desktop) que permitem o acesso remoto a equipamentos digitais sem necessidade de conhecimentos informáticos muito avançados e sem que isso seja visível por qualquer vigilante ou através de uma verificação prévia, necessariamente breve, dos computadores dos alunos.” (DN, online a 25 de Junho de 2025)O que verificamos um ano depois: uma total inacção, misturada com inépcia, nesta opção voluntarista por provas digitais (ou híbridas) que se pretendem de acesso reservado, nomeadamente no que à prevenção de eventuais fraudes diz respeito. A verdade é que horas depois da realização da prova, o seu enunciado já era público e, desta vez, nem sequer disfarçando que foi captado durante a realização (o ano passado ainda apareceu com um grafismo diferente do real). O MECI manteve as condições técnicas (precárias) da realização da prova, não adicionou qualquer ferramenta de prevenção da difícil tarefa de impedir a captação ou transmissão da prova, o que levou a um muito atrasado lamento dos directores escolares a pedir “novas técnicas de vigilância nos exames para detetar tecnologias usadas por alunos” (DN, 19 de Junho de 2026).O que muito pouca gente questiona é o que foi feito, ao longo de todo este ano, para prevenir, mesmo se é difícil consegui-lo de forma total, mas ao menos dificultando, situações como esta. O que fizeram as equipas de um Ministério da Educação, alegadamente “reformado” para se adequar aos novos tempos, ou o que preveniram os próprios dirigentes escolares antes de ser evidente que nada foi feito. Porque houve quem avisasse o que estava em causa, o que poderia acontecer e como. Claro que é mais “simples” ignorar, qualificar os avisos como alarmistas e fazer figas. Uma coisa aconteceu… o responsável pela divulgação dos enunciados “não-públicos” prosperou no seu negócio de explicações digitais e até foi convidado (como empreendedor?) para intervir em eventos dedicados à “Educação do Futuro”, como se o futuro se tivesse rendido aos esquemas manhosos de qualquer um com jeito para explorar as debilidades destas provas.O MECI, como no caso do exame de Português de 12.º ano com imagens duplicadas de cadernos de apoio, vai encenar auditorias e eventuais apuramentos de responsabilidades que, em regra, acabam na pasta da reciclagem. Se nem é capaz, dois anos depois de entrar em funções, de apurar quantos professores faltam no sistema público de ensino… teria de começar por apurar as suas responsabilidades e incompetência neste descalabro.