A 6 de março vejo uma reportagem no programa A Prova dos Factos, da RTP, sobre Mafalda Guerra Livermore, militante do Chega, namorada do vereador desse partido na Câmara de Lisboa, Bruno Mascarenhas. Ela fora nomeada em dezembro vogal da Administração dos Serviços Sociais da autarquia de Lisboa. A reportagem da RTP dizia que Mafalda arrendava habitações indignas a imigrantes e que estaria a ser investigada em dois inquéritos pelo Ministério Público.A 7 de março leio que o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, do PSD, exonerara a senhora. Lembro que Moedas a nomeara meses antes apesar, segundo a revista Sábado, de outra vereadora do Chega, Ana Simões Silva, se ter demitido do partido por causa dessa nomeação.Também a 7 de março leio que o presidente do Chega, André Ventura, defendeu Mafalda dizendo, ao contrário de Moedas, que fora ela que se demitira “em nome da transparência e da integridade”, mesmo sabendo, argumentou, que o que foi transmitido pela RTP eram “alegações falsas”.A 10 de março revejo André Ventura virar-se diretamente para um jornalista da RTP a dizer isto: “A RTP está pejada de socialistas, de comunistas e de bloquistas. É tempo de acabarmos com isso. (...) é mesmo isto: a RTP está pejada de comunistas, de bloquistas e de malta que não representa o país (...) se já não são representativos não podem estar num canal público de televisão que recebe centenas de milhões de euros todos os anos dos contribuintes, porque são contribuintes que também são eleitores do Chega, também são eleitores do PSD e merecem que essa mudança seja feita.”Esta aliança de bastidores entre PSD e Chega que Ventura explicita para a “limpeza” de lugares sob tutela do Estado, que se calhar envolve agora a nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional, fez-me lembrar os tempos em que andei, aos 13 anos de idade, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa.A Associação de Estudantes era dominada, no pós-25 de Novembro, por jovens do PPD, o partido de Sá Carneiro, a que se aliavam jovens que se autointitulavam militantes do MIRN, uma organização protofascista liderada por Kaúlza Arriaga, um militar fiel a Salazar.Lembro-me que quando foram essas eleições, os meninos do MIRN estavam à porta da assembleia de voto, a exibir bastões, matracas, paus, soqueiras e facas ponta e mola. Um deles acompanhou-me até à mesa de voto, a espreitar por cima do ombro para ver onde é que eu votava. Só escapei de uma carga de porrada por ter votado em branco e por um dos jovens do PPD ser meu colega de turma e ter dito aos outros que eu era um “gajo porreiro”.Dias depois havia ali perto um evento da União dos Estudantes Comunistas e vejo este grupo reunir-se na escola munido do seu armamento. Iam ao tal comício da UEC para “dar pancada” e bradavam esta frase: “UEC! UEC! Abriu a caça ao comuna.”No dia 12 de março leio que a EGEAC, empresa da Câmara de Lisboa controlada politicamente por Carlos Moedas, decidiu, sem explicações, não reconduzir a diretora do Museu do Aljube Resistência e Liberdade, a militante comunista Rita Rato, apesar do tão elogiado e extraordinário trabalho ali feito...A qualidade profissional não interessa, se és comunista, estás tramado. Como André Ventura explicou, Chega e PSD voltaram ao rescaldo do Verão Quente e abriram a época de caça ao comuna - o que incluirá, como ele disse, a “limpeza” de socialistas e bloquistas.