Trump, Putin e a terceira hipótese

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Em geopolítica, padrões persistentes exigem explicação, e o que observamos na política externa de Trump não é coincidência. Uma Venezuela sob administração americana transitória, uma Síria gerida por um sucessor pragmático, Cuba em negociação e um Irão sob pressão militar sem alternativa liberal, tudo isto coexiste com concessões energéticas à Rússia, pressão asfixiante sobre a NATO e uma retórica presidencial notavelmente indulgente com Vladimir Putin.

Duas hipóteses circulam na análise corrente. A primeira: Trump admira Putin e quer trazê-lo para a sua esfera de influência, num entendimento bilateral que repartiria o mundo em “zonas de gestão” entre grandes potências. A segunda, mais grave: Trump age por procuração de Moscovo, consciente ou não, e a política externa americana reflete interesses russos internalizados ao longo de anos de relacionamento financeiro e político.

A primeira hipótese é plausível no plano psicológico, mas insuficiente no plano estratégico. A segunda enfrenta um paradoxo insolúvel: a pressão de Trump sobre a NATO está a forçar um rearmamento europeu que, em termos de capacidades convencionais, seria o pior cenário para Moscovo. Um agente de Putin racional não produziria este resultado.

Surge então uma terceira hipótese, mais parcimoniosa e incómoda: Trump não é pró-russo, nem age por procuração; é sistematicamente “antiliberal”. O padrão consistente não é o favorecimento de Putin, mas a preferência por interlocutores identificáveis, homens fortes com quem se negoceia diretamente, em detrimento de sistemas plurais imprevisíveis, com eleições, Parlamentos e sociedades civis que complicam os acordos.

Na Venezuela, Washington assumiu a gestão direta de ativos petrolíferos; na Síria, o sucessor Al-Sharaa reorienta Damasco sob influência indireta; em Cuba e no Irão, a lógica é a mesma. A esta coerência transnacional não é alheio um enquadramento que a imprensa de referência tem documentado: a sobreposição entre decisões de Estado e os interesses económicos do círculo presidencial, particularmente no setor energético. Não se trata de imputar intenção criminosa, mas de notar que a coincidência entre a política externa e o lucro privado é sistemática.

Neste cenário, a Rússia não é o objetivo final, mas um instrumento. Moscovo serve de alavanca para a compressão da China, retirando a Pequim fornecedores de “crude” com desconto e forçando a sua dependência energética de Putin em condições desfavoráveis. Esta geometria sino-russa explica o teatro tático. Mas a verdadeira ameaça desta lógica revela-se mais perto: de subversão interna.

Ao validar o modelo do “homem forte”, Trump oferece cobertura ideológica a forças que já operam dentro da Europa. Da Hungria de Orbán à Eslováquia de Fico, passando pela ascensão da AfD na Alemanha, assistimos a uma sobreposição de agendas: o desdém pelas instituições de Bruxelas e a preferência por um eixo de “soberanias transacionais”. O perigo real não é uma invasão russa, dada a trajetória de desproporção convencional que a Europa está a construir a favor de si própria, mas a “trumpização” da política europeia. O rearmamento será um “tigre de papel” se as capitais europeias passarem a ver em Washington e Moscovo modelos de poder pessoal em vez de aliados de valores.

A explicação mais honesta para o comportamento de Trump pode ser a mais desconfortável: age por interesse transacional imediato, sem doutrina articulada. O padrão emerge da lógica do negócio, não de um plano deliberado, mas da acumulação de transações que, vistas em conjunto, desenham uma nova geometria de poder. O que o torna mais perigoso, não menos. Contra uma estratégia coerente, é possível calibrar respostas. Contra a imprevisibilidade que produz efeitos estruturais sem plano consciente, a única defesa é a autonomia estratégica.

Uma Alemanha que gasta 3,5% do PIB em Defesa e uma Polónia a construir o maior Exército europeu não agem por convicção ideológica, mas por necessidade darwiniana. Contudo, essa autonomia terá de ser, acima de tudo, política. Sem uma defesa imunitária contra a subversão que mimetiza o modelo transacional, a Europa corre o risco de se armar apenas para descobrir que o adversário já se senta à mesa do Conselho Europeu. Este poderá ser o legado involuntário, e mais duradouro, da era Trump.

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