Três vozes portuguesas no mundo

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

Publicado a: 

Há momentos que dizem mais sobre um país do que muitos discursos sobre a sua importância. Esta semana, três portugueses subiram à tribuna da ONU: António Guterres, no último debate geral do seu mandato como secretário-geral, António Costa como presidente do Conselho Europeu e Luís Montenegro como primeiro-ministro.

Cada um representava uma instituição diferente, mas é difícil ignorar o significado desta coincidência. Com dez milhões de habitantes e sem o peso das grandes potências, Portugal construiu ao longo de décadas, com governos de diferentes cores, um capital diplomático superior à sua dimensão. A eleição, à primeira volta, para o Conselho de Segurança é outra expressão disso.

Esse capital não nasceu de um momento ou de um Governo. Resulta da continuidade de algumas constantes da política externa portuguesa como a opção europeia, a relação transatlântica, a ligação ao mundo lusófono, a abertura a África, à Ásia e à América Latina e a defesa do multilateralismo. É esta combinação que permite a Portugal dialogar com interlocutores diferentes e construir pontes entre eles.

Os três discursos partilham uma leitura do mundo. Guterres alertou para as guerras, as desigualdades, as alterações climáticas e uma revolução tecnológica que exige regras globais. Costa afirmou que nenhum país consegue, sozinho, estabilizar o clima, regular a Inteligência Artificial ou construir uma paz duradoura. Montenegro colocou o diálogo e a cooperação no centro da presença portuguesa no mundo.

E convergem numa ideia essencial: defender a ONU não significa defender que tudo fique como está. O mundo que a criou já não existe. Mudaram os equilíbrios demográficos e económicos, surgiram novas potências e apareceram desafios que nenhum dos fundadores poderia antecipar. Costa defendeu um Conselho de Segurança mais inclusivo e representativo e Montenegro apoiou uma maior representação de África e lugares permanentes para o Brasil e a Índia. O multilateralismo não se protege pela imobilidade, mas adaptando as instituições à realidade que pretendem governar.

O mesmo vale para o clima e para a IA, problemas que revelam os limites da soberania isolada. As emissões não respeitam fronteiras e um algoritmo criado num continente pode transformar sociedades noutro. Por isso, Guterres e Costa insistiram numa governação internacional da IA e numa resposta mais rápida às alterações climáticas.

Há também uma última lição, desta vez para dentro. A política externa portuguesa mostra que partidos diferentes conseguem identificar interesses permanentes do país e preservar a continuidade apesar da alternância democrática. Isso não elimina o debate, mas permite distinguir aquilo sobre que devemos discordar daquilo que podemos construir em conjunto.

Por que razão essa capacidade é tão visível lá fora e tão rara cá dentro? A demografia, a produtividade, a habitação, a educação, a saúde, a transição energética, a IA e a sustentabilidade da Segurança Social são desafios que sobreviverão a vários governos. As soluções podem e devem ser discutidas e as diferenças ideológicas são legítimas.

A nossa democracia ganharia se os partidos do centro demonstrassem a mesma capacidade que a diplomacia tem revelado para identificar o essencial, aceitar que ninguém tem todas as respostas e construir compromissos que sobrevivam a uma legislatura.

Diário de Notícias
www.dn.pt